A celebração da Sociedade

Francisco José Viegas responde-me que os comerciantes de coimbra bem podem ficar descansados. Segundo diz, asseveram-nos os interesses da AAC, das cervejeiras, e de hordes estudantis sequiosas por Quim Barreiros, que a hipótese de anulação da Quiema das Fitas nunca será mais que um ardiloso bluff político. Temo que o tempo lhe venha a dar razão. Lamentarei se assim for.

É que eu tinha imaginado uma cena linda. Nela as cervejeiras uniam-se às floristas de Coimbra para contestar a anulação da queima, deliberavam num conciliábulo que o protesto simbólico deveria consistir na tomada das ruas de Coimbra, através da oferta de barris jorrantes e flores vistosas. O sindicato das floristas chamaria a si a organização assim como a escolha dos grupos musicais. A cidade apoiava, os estudantes também, juntos, todos beberiam cerveja revoltos em rosas. Pelas áleas entoariam cânticos de nostalgia e esperança. No fundo, era uma Queima com uma causa: o regresso da festa antiga. Lutar-se-ia no perpétuo fracasso, Maio acolheria a festa das flores e da cerveja. A Queima das fitas, a desejada, essa, não voltaria nunca.

A questão grave é que Coimbra que não tem tradição de santos festivos, e carece, por isso, de um ritual social agregador de paixões. Papel que, mal ou bem, vem sendo desempenhado pela Queima das Fitas.
Como nos mostra Victor Turner, os rituais sociais não apenas desempenham um papel na representação do que é a sociedade (estrutura) ou na reversão momentânea das lógicas que a regem (anti-estrutura, e.g. o carnaval).
Na verdade, eles participam enquanto elementos constitutivos do nosso tecido de relações, ora como traves de conservação do status quo, ora como momentos críticos da sua transformação. É em face desta leitura que eu acredito que Coimbra carece de um ritual cíclico de adesão massiva, sob pena de se desestruturarem equilíbrios sedimentados (falo dos comerciantes, mas poderia referir o facto de quase todos os meus amigos de Coimbra fazerem anos de namoro na semana da queima). Sinceramente acho que seria grave que não houvesse Queima. Por outro lado, também retiro da perspectiva de Turner a imperiosa necessidade da Queima das Fitas se transformar noutra coisa.



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