As pós-traumatizadas

Leitura tentativa Mais ou menos a partir dos 23 anos, surge um fenómeno preocupante nos relacionamentos amorosos. Todos os enamoramentos estabelecidos a partir de uma tal idade confrontam-se com uma de duas fatalidades de recorte apocalíptico:

1- A pessoa que suscitou o afluir de um encanto está comprometida -
A partir de certa idade os namoros democratizam-se, tornam-se um imperativo (democratiza-se o acesso num regime ditatorial). Um imperativo que às vezes é afectivo, outras vezes é social, noutras situações é apenas uma forma inventiva de arranjar um parceiro sexual fixo ao fim-de-semana. Esta disseminação aparece de tal modo epidémica que o surgimento em cena de alguém bonito, interessante, que não namora, convida à suspeita: é melhor desconfiar! Algo se passará? O quê? (ver ponto 2)
2- Estamos em presença de pessoas pós-traumatizadas (aproprio esta expressão da linguagem psicopatológica). A partir de certa idade já toda a gente teve um grande amor e/ou um relacionamento forte e duradouro. No fundo, falamos de pessoas com uma história, mas como toda a história de um amor perdido, é uma história que fica por resolver. São pós-traumatizadas no sentido em que actualizam o impacto do passado perante situações que tomam contornos semelhantes. (a noção de trauma de Freud é operativa para captar esta conversa entre diferentes temporalidades)

Portanto, a haver pessoas interessantes e solteiras, a haver um enamoramento e uma proclividade para a relação emocional, o porvir tende a ser marcado por um referente histórico: Um(a) ex marcante. Os pós-traumatizados são todos aqueles que enfrentam o espectro de novas relações com as expectativas e temores que foram nutridos num grande amor passado. Esta ligação faz com que o alter da nova relação não tenha uma existência autónoma: "ela é mais isto ou menos isto do que Joana". "Ele às vezes faz-me lembrar o César"... "acho que a amo tanto como.."

Enfim... O amor passado estabelece a fasquia da entrega do presente.


O quadro aqui engendrado procura captar algumas continuidades sociais pelo exagero. Os maiores de 23, solteiros, também sabem que o amor é um exagero, um excesso que a qualquer momento faz a sua história sem complacências com a memória.



<< Home