As Nativas do Jardim

O Jardim Botânico de Coimbra é um espaço lindíssimo; a paredes-meias com a alta universitária, está decisivamente encrostado no coração simbólico da cidade. O mais fascinante é a penumbra que o constitui, uma vasta área fechada ao público, muitas vezes esquecida, que corresponde a cerca de 80% do total do verde não ardido (quando era mais novo assaltei esse mistério através de um interceptor, uma espécie de rua subterrânea das canalizações da cidade que parte ali da Rua da Alegria). Na sua insuspeita amplitude, o Botânico vai desde os Arcos do Jardim até ao rio que quase beija (como aquelas pessoas que quando dão dois beijinhos tocam os nossos lábios com os cantos da boca). Com as transformações climáticas que o mundo atravessa, aquele é hoje um dos poucos lugares em que essa ideia das estações ainda faz sentido, por exemplo, o Outono oferece uma decoração de exteriores que não lembraria à primavera, sempre tão arreigada às suas certezas. Mas falemos de quem por ali anda. Para além dos esquilos que realmente fazem daquilo a sua casa, os únicos roedores que nutrem daquele espaço mais do que uma passagem, são aqueles casais sôfregos, que trocaram a cama de uma pensão da Sé Velha pela discrição dos arvoredos. Neste caso, os ramos afectos ao vento mais não são do que as cortinas que velam o desejo. Quando falo dos roedores não abraço a pluralidade dos casais enamorados, falo apenas da prática ritual de preliminares nos bancos do jardim. Na verdade, nada mais belo do que ver os pares em franco enamoramento, colhendo do chão as folhas de plátano, para mais tarde recordar, adivinhando, creio, esse insólito de uma memoração solitária. É esse o evento que mais me comove desde que tirei umas tardes para etnografar os usos afectivos de uma materialização do sublime natural. Para além dos roedores, das aves, dos casamentos em busca de fotos, das famílias domingueiras, há um espécie que se passeia há séculos pelas áleas do Jardim, aquela que assume a sua natividade em relação a uma identidade romântica, habitante daquele solo. Falo das solitárias (e dos solitários) que por ali erram, que longamente se sentam a ver o pôr do sol e a dar migalhas aos peixes, alojadas no ideário da saudade que Coimbra parece evocar. O que se torna interessante acolher é como esses itinerários cúmplices com os plátanos, se arvoram ao meu olhar como revisitações que falam de outras tardes. As solitárias que buscam a árvore das folhas, das folhas que há anos foram postas a secar no meio de um livro de poemas, essas são as nativas do jardim. A única espécie autóctone. Elas sabem-no: é ali que esconde o elo perdido de uma vida enterrada nos seus monumentos.



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