O vidente dos troléis

Quando era mais pequeno sentava-me no banco da paragem de autocarros e começava a ler o futuro. Com os olhos fixos nas linhas do eléctrico procurava antecipar a chegada do meu transporte para escola. Quando via um leve movimento balanceante, um daqueles que o vento não merece, levantava-me e esperava, confiante na concretização dos meus cálculos. ah.. Lá vinha o amarelo sobre rodas. Três minutos era o máximo que eu conseguia antecipar. Mas sabia-me bem começar o dia com uma premonição. Nunca o erro de falhar me tolheu. No entanto, nunca consegui antecipar mais do que três minutos. Para mim, a imagem de um autocarro eléctrico a virar esquina será sempre embalada de magia. Num desses dias da minha pequenice decidi não entrar no trólei, sentenciei que deveria ficar a aprimorar a minha técnica. Essa manhã, passei-a toda a olhar para os fios dependurados num jogo insólito. Deslumbrado com os meus dotes de adivinho, concluí que entrar no autocarro não era o mais importante. Depois de a minha mãe me ter convencido do contrário, voltei a deixar que os autocarros me levassem para a escola. Fiz a primária e o ciclo a resistir à tentação de ficar. Hoje sei que algo sempre fica.



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