O Rescaldo Prometido

Como prometido dedicarei as próximas linhas para falar do Encontro Informal de Blogues ─ na verdade foi mais um encontro de bloggers ─ decorrido na passada quita feira na Sociedade de Geografia. Aviso: não levei caderno de apontamentos.
Embora o ambiente fosse bem descontraído, a informalidade não foi total, para isso contribuíram diversos factores:
Um espaço físico austero, marcado pelas estátuas dos nosso navegadores, convidando à solenidade de um museu.
Um programa que embora fosse flexível estava mais ou menos estruturado com apresentações.
O facto de a disposição não ser a de uma mesa redonda, mas a de uma plateia que às vezes assumia uma formação mais circular
A circunstância de, pelo menos aparentemente, todos intervenientes estarem sóbrios. A rever.
Conclusão: o carácter semi-informal favoreceu a reflexão e a discussão, quiçá molestando um pouco convívio.

Embora havendo mais rapazes, penso que a proporção de sexos estava mais ou menos equilibrada, certamente mais do que aquela que vigora na própria blogosfera. Ao princípio a composição geral era mais sénior do que seria de esperar, mas com o evoluir da tarde houve um gradual processo de juvenilização.

Começo pelas impressões pessoais, no fundo as pessoas que falei e/ou consegui associar aos respectivos blogues. A certa altura, quando foi preciso queimar um tempo para chegar alguém, propus que todos se apresentassem, como é óbvio não consegui associar todos as pessoas aos seus blogues, mas, pelo menos, assim posso falar dos que me lembro. A minha cusquice saiu beneficiada.
Finalmente conheci o socioblogue, um dos primeiros interlocutores que tive nesta blogosfera, é mais novo do que a sua erudição sociológica poderá fazer suspeitar. O crítico mostrou ser um anfitrião entusiasmado, simpático e divertido, algo diferente do que o seu blogue, comedido e dedicado à música clássica, sugere. Lá estava o Mário do Retorta, ao princípio pensei que era o fotógrafo de serviço depois percebi que era um blogger com uma irresistível pulsão para a imagem. A bela Luísa de Macedo de cavaleiros confessou-se leitora do avatares, lá lhe consegui pedir a sua morada. Cumprimentei o Tiago do melhor anjo, a quem perguntei se havia ficado contente com a minha réplica às questões que ele colocou em torno do xoxo da amizade. Bebi um galão com o Paulo Pereira do Blogo Social Português, trocámos algumas impressões sobre os fóruns sociais que aí vêm. JCD (Jaquinzinhos) chegou mais tarde, sentou-se num lugar do fundo, e revelou-se na apresentação, é verdade, ele e o crítico estiveram na mesma sala, naquilo que já é um dos mais épicos confrontos da blogosfera. No fim falei com o Pedro Mexia e com o Zé Mário, sou leitor dos seus blogues há algum tempo, por isso, é com desvelado agrado que registo a sua simpatia para comigo. Troquei também amistosas palavras com Paulo Querido (O vento lá fora), Joaquim Nogueira (Respirar o Mesmo ar) e Pedrof (Contra factos e argumentos). A catarina do 100 nada também me pareceu bastante simpática. É um facto, havia por lá muita gente simpática e bonita, portanto a tese de que os bloggers se escondem atrás de um computador por falta de desenvoltura social saiu bastante beliscada.

Discorro agora umas palavras sobre as intervenções feitas a partir da mesas, falo, claro, do que me recordo:
1-A representante do sapo falou acerca da nova plataforma portuguesa para blogues a entrar em funcionamento a partir de 03/11/2003- A discussão centrou-se nos limites que o sapo iria estabelecer ao gerir a liberdade de expressão dos seus utilizadores
2-Paulo Querido narrou da sua experiência com a sua plataforma de blogues e das crises de crescimento que ela tem tido. Brindou-nos com ma miríade de aspectos técnicos menos conhecidos e partilhou descobertas insuspeitas acerca do uso dos blogues.
3-Pedro Lomba, num estilo négligée que lhe fica bem, deixou algumas reflexões, muito interessantes, sobretudo pelo cunho pessoal que lhes imprimiu: o blogue como um necessário exercício de disciplina; a apetecível descoberta de interesses comuns: “É que eu tenho poucos amigos como eu”; o confesso carácter narcisista da sua escrita no blogue; a inédita oportunidade criada pela blogosfera para que quem escreve bem possa mostrar o que vale e tirar daí ganhos pessoais. Antes de terminar defendeu ainda que a escrita num blogue se encontra eivada de uma liberdade muito superior àquela que é oferecida pelo espaço de um jornal
4-O José Mário discorreu deliciosa e generosamente sobre as incidências da sua já longa actividade enquanto blogger (de esquerda). Iniciou com uma provocação (penso que foi ele), dizendo que uma das diferenças visíveis entres a direita e a esquerda na blogosfera são as caixas de comentários, a esmagadora maioria da esquerda tem, a direita nem por isso. (Pedro lomba respondeu que não sabia pôr). Contou um episódio expressivo do quanto é possível uma pessoa expor-se no blogue, em termos pessoais, sem ter disso a exacta noção: o leitor continuado de um blogue mais intimista pode reter muitos aspectos significativos acerca da vida do seu autor (oops!). Fez um comparativo com os jornais, onde salientou a existência temas e abordagens a que só é possível aceder na blogosfera (falou do avatares, eu juro que ouvi!).
5-O Pedro (do farol das artes) apresentou uma análise divertida e pontuada por uma arguta ironia acerca da relação dos blogues com os valores e instituições da nossa sociedade
6-O Mário (Retorta) falou acerca das comunhões que é possível estabelecer na blogosfera, tendo manifestado o seu desejo de que, por exemplo, a fotografia pudesse catalisar mais interesse e atenção. (A propósito o Mário deixa-nos belos fragmentos fotográficos do espaço onde decorreu o encontro.)
7-O Tiago (melhor anjo) apresentou um belo texto de cariz poético onde se expõem as ansiedades, desejos e realizações que a marcam o percurso de quem se dedica a ser blogger por lealdade a uma busca que se quer incerta.
8-Guilherme Statter, o sociólogo de serviço, fez um apanhado sobre os conteúdos tratados até então. Introduziu alguns conceitos, destaco: o capital social incrementado por um espaço de comunicação, debate e informação, como a blogosfera; o encanatamento tecnológico suscitado pela gostosa simplicidade com que podemos construir um blogue.
9-A Pedro Mexia foi a atribuída a ciclópica empreitada de lançar o debate. Não vacilou. Num discorrer diletante que cativa, Mexia referiu-se ao alargamento do espectro político-ideológico permitido pela blosgosfera, claramente mais vasto do que o circunspecto mundo partidário que surge na comunicação social. Biografou-se constatando que num ano com o Blogue fez mais inimigos dos que nas primeira décadas da sua vida, uma inevitabilidade que não o incomoda por demais, disse; sustentou que a blogosfera emerge mormente como um espaço de afirmação pessoal: “quem escreve é quem julga que em algo para dizer”, portanto, embora muitos digam o contrário, todos querem ser lidos e por quantos mais melhor (estava dao o mote).
Registo agora alguns dos momentos dos debates e das discussões.
Quem se apresentou com particular estilo foi uma blogger do Desejo casar que, após dizer o seu nome (não recordo), revelou epíteto do blogue, deixando desejosa toda um plateia que nunca tinha pensado tão seriamente no matrimónio. O João Nogueira do Socioblogue pôs em causa a meritocracia que Pedro Lomba afirmava entrever na blogosfera, assinalou a existência de Blogues muito bons que ninguém lê, colocando a hipótese de que, mais do que uma rede totalmente aberta. temos sistema que se regula por alguns nodos que conferem ou não notoriedade aos demais. Uma linha em que foi acompanhado por Joaquim Nogueira que nos trouxe também alguns dados do congresso sobre blogues decorrido em Braga. A Mónica (B20b) defendeu que os blogues não podem ser estigmatizados apenas como um hobby, sob o perigo de se descurarem as suas potencialidades enquanto uma extensão do trabalho científico. Rui (do Adufe) falou acerca de uma proverbial falta de uniformidade nas traduções realizadas em portugal de termos estrangeiros, algo que se nota no mundo dos bolgues, mas que também já sentiu na pela na sua vida profissional. Pedrof do contrafactos e argumentos brindou-nos com a sua erudição acerca de aspectos mais técnicos da blogosfera, das dificuldades e possibilidades para a organização de informação. Eu também mandei para lá umas postas reflexivas e analíticas, perdoarão mas tinha que justificar a viagem!

Creio que não me lembro mais nada, deixo-vos pois este texto pontuado de omissões e selectividades pelas quais desde já me sentencio. As incorrecções ou difamações aqui achadas têm direito de resposta.



<< Home