O flagelo do ciúme

Sábado de madrugada. Ao computador tento tratar da saúde a uma tese. A televisão ligada sem som faz gostosa companhia. A Tv Shop tarda, eu aguardo (ninguém aguarda pela Tv Shop!). A música abafa o silêncio. Eis senão quando começa a dar na TVI um programa a que eu não resisto. A Ilha da Tentação. Versão americana. Sábado de Madrugada.
Tiro som da música dou um bocado de volume à televisão, mas não largo o computador (para todos os efeitos continuo concentrado nos desvarios de Judith Butler e Merleau-Ponty).

Sempre apreciei fazer uma certa paródia analítica retirando grandes profundidades da cultura pop. O que é certo é que aquele programa é mesmo bom, é profundo em si (já está!). Ali se Fala de um estranho desejo de auto-flagelação de casais que têm 90% de hipóteses de destruir as suas relações, 10% probabilidades de passarem o resto das suas vidas a tentar não dar importância a pequenas coisas que, uma vez vistas, jamais serão pequenas. No entanto, a questão central para a narrativa de cada casal não aparece no programa, induz-se. A questão decisiva é só esta: o que os leva ali?
Bem:
1-A sede de protagonismo dele ou dela? Então alguém entrará no "espectáculo", não se pode desiludir um público ansioso por traições!
2- Um teste de confiança que é pedido por uma das partes - a parte insegura (normalmente a feminina, falo da série)? É muito provável que a insegurança de partida não saia reforçada. Au contraire.
3- A vontade de aproveitar a coisa? Até podia ser uma hipótese, pena que seja quase sempre uma agenda secreta de um (ou dos dois) dos elementos do casal. E ninguém gosta de ver no outro a pluralidade dos seus próprios desejos.
4- Um desejo de afirmação do ego perante a continuada desvalorização vivenciada dentro da relação? Aqui já é muito tarde! O ego já só consegue afirmar-se pela transgressão libertadora: Vês, há quem me dê valor! É este o tema da longa discussão que em Eyes Wide Shut Tom Cruise e Nicole Kidman tão bem encarnam. Naquele caso os charros fumados são o álibi da desejada confissão. (Aliás, este filme, se levado a sério, pode ser boa prova para casais que se alojam na segurança das costumeiras comédias românticas).

Uma coisa interessante é o estatuto d@s tentador@s. A el@s cabe aliciar @s concorrentes. Sendo que o seu objectivo primordial é fazer advir um deslize à fidelidade amorosa. O problema é que os beijos abraços (e um pouco mais) acontecem com uma certa frequência. O que faz supor que o estatuto contratual d@s tentador@s será aproximável à ideia de prostituição. Ou, para utilizar um eufemismo, el@s incorporam o papel de "garot@s de programa".

Achei intrigantes duas situações.
Uma rapariga que se esterilizou aos 25 anos, porque não queria ter filhos, foi reputada de egoísta por um dos tentadores. (Acho que em muitas circunstâncias o inexorável desejo de ter filhos pode bem mais egoísta)
Um concorrente que na noite anterior tinha "corrido" todas as tentadoras não deixou de ficar arrasado por ouvir umas palavras em que um tentador se manifestava atraído pela sua namorada. (a inconsciência e a consciência disso assomam em força)

Estes testes de elevado consumo emocional (para não falar das hormonas pulsantes) podem ajudar deslindar aquilo que os voluntariosos concorrentes querem da vida. Se se querem mesmo casar. Se querem casar numa estação de comboio. Se querem resignificar as tentações como possibilidades livres. Se querem fazer das agendas secretas um modo de vida (estranho, diria).

Para mim é muito claro. Estamos perante pessoas que avisadamente quiseram antecipar uma crise de meia-idade. Não querer esperar pela crise pode ser bom. Ou não. As novas gerações tornaram-se hábeis em fazer a ponte entre os problemas da adolescência e os da meia-idade. As relações amorosas desempenham aí o papel de estrutura de suporte.



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