O Cinema e o amor dos tímidos perante o capitalismo tardio

Desde a adolescência, uma das mais viáveis formas de uma pessoa manifestar o interesse por outra, concretizando o desejo de uma partilha pré-sexual, é convidando-a para ir ao cinema. Apesar de poder ser entendida como uma abordagem algo iniciática, esta proposta apresenta alguns méritos, sobretudo para as pessoas tímidas:

1- A exibição de um filme obedece a um ritual pré-estabelecido em que a acção dos espectadores é mínima, portanto, minoram-se os constrangimentos que possam surgir entre duas pessoas que não se conheçam muito bem. Constrangimentos que, dependendo da arte dos intervenientes, poderão ser mais notórios num jantar, pelo menos enquanto o vinho não comece a fazer o esperado efeito.
2- A situação física no cinema sanciona uma proximidade entre os corpos exercendo um efeito de sugestão (erótica talvez), efeito que é agravado pela escuridão que nos envia para o imaginário de um conforto íntimo. Mesmo que haja uma lotação esgotada e que do outro lado, igualmente próximo, esteja alguém a comer pipocas, durante cerca de duas horas as duas pessoas socorrem-se uma da outra, criando um laço simbólico que as salva da desconfortável ideia de ir sozinh@ ao cinema -sobretudo se for à noite - ou de partilhar a sala com personagens menos desejáveis
3- Por mais envolvente que seja um filme, as duas pessoas encontrarão sempre momentos para reflectir acerca da sua companhia, e essa reflexão é singular porque pode ser feita, descontraidamente, ao lado do ser que está a ser pensado. Por isso, quem convida tem a certeza que, entre um acidente e uma cena de sexo, a sua companhia irá meditar sobre quem a convidou. Por outro lado, a oportunidade de pensar em alguém ouvindo a sua respiração pode ser uma dádiva concedida por antecipação.
4- O facto de duas pessoas verem um filme juntas cria uma cumplicidade, e essa cumplicidade será tão mais forte quanto mais marcante for o filme. Imaginemos na irreversibilidade que existe para os nossos pais quando hoje lembram quando e com quem viram o Casablanca pela primeira vez! Se o filme for mau essa cumplicidade, embora menos forte, também é passível de ser activada para outras conversas e outras tentativas cinematográficas (as apresentações do início podem ser uma pista).

A indecibilidade adolescente:
Posto isto, dirijo-me à questão que queria abordar: nesta tensão entre o desejo de estabelecer uma cumplicidade e evitar o constrangimento de duas pessoas que não se conhecem bem, surge um facto novo, um facto que em Portugal tem uma década. Falo do fim dos intervalos no cinema! Eles eram importantes porque nos permitiam ir á casa de banho, algo que com filmes de 3 horas, agora na moda, vai fazendo falta. Mas também tinham um precioso efeito na partilha para o casal circunstancial, por assim dizer, o intervalo era um momento central na construção erótico-afectiva.

A questão é que sem o intervalo uma noite poderá reduzir-se a um nivel mínimo de comunicação, prejudicando gravemente os objectivos do encontro. Portanto, esta tranformação ajuda à ausência de constrangimento comunicacional, mas molesta, e muito, a possibilidade de se estabelecer uma empatia capaz de criar enamoramento. Posso dizê-lo: hoje o enamoramento - que não o cinéfilo - escasseia nas salas de cinema portuguesas.

Porque as pessoas tímidas existem em todas as gerações, creio que seria importante criar-se um movimento social de base capaz de reivindicar a reposição dos intervalos nos cinemas. Afinal, os tímidos também têm direito ao amor. Pensem nisto.



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