Derrida Live

Na conferência de abertura Jacques Derrida desconstruiu deliciosamente a relação entre bestialidade e soberania, falando de um fascínio que irmana a besta, o criminoso e o soberano. Pelo meio ficaram umas farpas aos Estados Unidos, que tomaram por base a asserção de uma similitude entre um Estado Criminoso e um Estado Soberano que desrespeita a lei Internacional. Creio que a reflexão forte que Derrida deixou naquela sala nos remete para o imperativo de se amestrar o ímpeto de bestialidade que subjaz o exercício da soberania. Não a negação desta.

À noite foi apresentado um excelente filme sobre Jaques Derrida, um registo filosófico e auto-flexivo, que acaba com a questão da ipseidade, a plurivocidade existente em cada sujeito. Aí Derrida finaliza com a impossibilidade da afirmação: "Eu assino". De novo emerge o Eu convulso, o Eu que não existe. Com esta delclaração a película termina com uma questão que entrevejo como sendo próxima à que Michel Foucault coloca em O Pensamento do Exterior: "A verdade grega tremeu, outrora, nesta simples afirmação: “eu minto”. “Eu falo” põe à provo toda a ficção moderna". Na frase de Derrida é a irresolúvel ansiedade na constitução do Eu, quem assina quando eu assino? Na afirmção de Foucault acrecenta-se o insólito de alguém falar a sua fala e não a fala que lhe é exterior. Afinal a fala - a linguagem, o discurso- que, segundo Foucault, nos constitui enquanto sujeitos. Essa soberana ficção.

Disseram-se muitas mais coisas, mas como devem calcular, por hoje já tive a minha dose.
Na verdade, a coisa mais importante foi o Derrida ter-se sentado à minha frente para ver o filme.




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