O que é um "xoxo da amizade"?

Respondendo a milhares de apelos, passo e explicar, tentativamente, o que se poderá querer dizer com "xoxo" da amizade.
O "xoxo da amizade" é uma instituição cultural emergente nas gerações mais novas. Numa primeira instância, o xoxo da amizade deve ser distingido do beijo amigo, este último deve o seu nome à recente linguagem belicista que vem falando do "fogo amigo" para refrir as mortes e ferimentos infligidos por um aliado no combate. Nesse sentido, o beigo amigo seria, quando muito, uma alusão irónica aos beijos que desgraçam a vida a quem os recebe, imaginemos, por exemplo, alguém que é beijado de um modo demasiado afectuososo sob o vislumbre intrigado da namorada, ou alguém que é beijado em solícita amizade e se apaixona estupidamente, temos, pois, actos involuntários, ou demasiado voluntariosos, com nefastas consequências.

Esclarecidas as distinções, voltemos ao xoxo da amizade. Este consiste basicamente em beijos dados na boca entre amigos. No entanto não podemos chegar ao absurdo de pensar que sempre que dois amigos se beijam na boca estamos perante um beijo da amizade, na verdade este conceito cobre um numero de práticas bastante específicas e obedece a normativos mais ou menos precisos:

1- É uma demonstração de afecto entre amigos, usualmente restrita a um ciclo fechado de amizades fortes
2- Apenas se empregam os lábios, por breves instantes, e com a boca fechada
3- Ocorre em momentos festivos, normalmente imbuídos de algum tipo de euforia
4- Não representa uma violência simbólica - os beijos a sério têm sempre uma violência simbólica, esta poderá elidir-se, por exemplo, nos reiterados beijos de um casal ao longo dos anos, mas, mesmo aí, há uma violência simbólica fundadora
5- Pode ser dado entre pessoas de sexos diferentes ou do mesmo sexo, não havendo, portanto, uma relação necessária com o género ou a orientação sexual dos intervenientes
6- Não comporta o cunho de uma traição, uma vez que o significado em causa é a amizade e, por isso, não colide com o amor e as relações amorosas.
7- Não comporta erotismo, ou pelo menos o única carga erótica que poderá ter é a sugestão que cria a quem observa
8- Regra geral é feito em público, não apenas porque de outro modo se poderia entrar no campo de uma intimidade sensual, mas também porque um dos valores que está em causa é a demonstração pública de um afecto.
9- Nunca se usa a língua, o seu uso envia-nos para outras práticas culturalmente sancionadas, e constitui uma adulteração do espirito da coisa
10- É uma subersão domesticada porque tende a ocorrer em contextos sócio-históricos em que o seu uso é compreendido nos termos estritos da amizade. Por isso, é importante que os outros significativos não possam sobre-interpretar esta prática
11- A haver espectro de uma trangressão ele está relacionado com os valores homofóbicos dominantes que tendem a ser rigorosos nas práticas corporais sancionadas para indivíduos do mesmo sexo.
12- Poderá ter um efeito performativo nas relações, ou seja, não é apenas a demonstração de uma amizade existente, pode servir para a fortalecer alterando assim a sua natureza.

É uma decrição precária de uma prática pouco praticada na sociedade portuguesa, mas que se vai disseminando em espaços cosmopolitas associados às culturas jovens, como Barcelona, cidade onde nunca estive.



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