Despojos do dia

Chego de Lisboa, demasiado exausto para vos falar com algum cuidado do Encontro Informal de Blogues, dos seus intervenientes e temas mais suculentos. Até porque temo - por mim - que o pessoal tenha ido para os copos, pelo que, nesse caso, a minha leitura ficaria eivada de uma grave incompletude. Em duas palavras, gostei muito, de facto, o crítico musical está de parabéns pela iniciativa. No entanto, devo confessar que o meu manifesto gosto pela discussão, pela análise crítica, e pelas profecias antropológicas, não conseguiu sobrepor-se a uma curiosidade, chamemos-lhe infantil, de ver as pessoas enquanto presenças incorpóreas em acção interpessoal. Alguém falava de um encantamento tecnológico decisivamente associado à blogosfera. Até certo ponto, o encantamento pode fazer sentido, mas para mim a tecnofilia não podia ser mais residual. Assumidademente, tenho uma relação interesseira com as inovações tecnológicas, uso-as mas sei que não as poderei amar. Concedo, pois, que as pessoas e os seus enigmas, e os enigmas que as pessoas são, persistem sendo o móbil primário da sedução que as palavras exercem em mim. A estas consigo amar, mas a sua autopoeiesis, algo a que se poderia chamar literatura em sentido estrito, é qualquer coisa cuja existência me é desconhecida, talvez por uma incapacidade de centramento, por um reiterado desejo de resvalar para as minhas narrativas ou para as de outrém; às vezes as dos autores, às vezes as muitas emanações permitidas pela sua morte, a tal que Roland Barthes prenunciou referindo-se a uma proliferação não domesticada de sentido. Bem, vou dormir, não sem antes...



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