Crucifiquem-me

Verifiquei na já ida troca de argumentos entre a voz do deserto e os canhotos sobre os discurso irónicos, a presença de um subtexto, que, embora colocado nas franjas do debate, constituiu-se como um elemento retórico absolutamente central. Refiro-me ao tema da fé e da religião.
A nossa geração está claramente marcada por um distanciamento/recusa em relação ao impacto dos valores religiosos. Primeiro porque esta recusa é uma denúncia afirmativa ou calada do peso de ideais conservadores, opressores das liberdades e fomentadores de formas de discriminação em relação às minorias. Segundo, porque determinados projectos de transformação social souberam reconhecer na ideologia religiosa os perigos do adiamento da busca dos novos lugares da vivência humana, no fundo, o perigo de se perpetuarem as relações de desigualdade por alusão às promessas de outros mundos (esquecendo, talvez, coisas como a "teologia da libertação"). Mas, também aqui, me parece que com demasiada facilidade se deita fora o bebé com água do banho. Diria Jesus acusando os fariseus:"Bem invalidais o mandamento de Deus para guardardes a vossa tradição." Aqui a questão será a contrária, será possível encarar os domínios da fé, recusar os totalitarismos das tradições sedimentadas dos homens, submetendo os fundamentos da fé a uma crítica, que não seja apenas a critica às suas apropriações hegemónicas?

Naquele jogo de compromissos e liberdades, o mais vulnerável é sempre quem assume algum tipo de fé, seja a fé da esquerda num outro mundo feito possível, seja a fé na mensagem de Jesus. Nisto tudo que direi eu? Fui ao fórum social português porque creio. Leio o sermão da montanha num acto de fé.

Crucifiquem-me!



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