VPV
Vasco Pulido Valente, em entrevista a Carlos Vaz Marques, Revista Ler:
CVM: "Sente que passou ao lado de alguma coisa, que podia ter sido uma personagem maior?"
VPV: "Por amor de Deus, isso é uma pergunta extraordinária. Se eu fosse capado e rico é possível que tivesse escrito melhor História."
Avulsos

"No plano pessoal, Ronaldo cada vez mais se assemelha a um fedelho destituído de estofo suficiente para poder ser um exemplo humano razoável." CAADetesto ter que defender o Ronaldo, mas o deita-abaixo nas ladainhas moralistas enerva-me mais que a falta de consistência cénica do rapaz (a meu ver, o seu maior "defeito" -- ao contrário de outros, atenho-me à crítica da figura mediática).
Comentemos então o que nos diz o CAA sobre o "fedelho":
1º ponto: Tanto quanto sabemos, a família dele não dirá o mesmo, aliás, haverá poucas celebridades tão dedicadas à família. Um exemplo prosaico, podendo os jogadores seleccionar um familiar para festejar o título em campo, não me lembro de algum ter levado a mãe como fez Ronaldo passado Junho em Old Trafford (vide foto). Um gesto"exemplar", porventura.
2º Ponto: Fica por saber de que modo a fama, a fortuna e o assédio do mulherio moldariam o nosso carácter. E o do CAA, já agora.
3º Ponto: Em que alturas morais é que o CAA paira para julgar com tão agudo discernimento aquilo que deva ser "um exemplo humano razoável"?
1º ponto: Tanto quanto sabemos, a família dele não dirá o mesmo, aliás, haverá poucas celebridades tão dedicadas à família. Um exemplo prosaico, podendo os jogadores seleccionar um familiar para festejar o título em campo, não me lembro de algum ter levado a mãe como fez Ronaldo passado Junho em Old Trafford (vide foto). Um gesto"exemplar", porventura.
2º Ponto: Fica por saber de que modo a fama, a fortuna e o assédio do mulherio moldariam o nosso carácter. E o do CAA, já agora.
3º Ponto: Em que alturas morais é que o CAA paira para julgar com tão agudo discernimento aquilo que deva ser "um exemplo humano razoável"?
Ronaldo: top 10
O vídeo em baixo apresenta-se como uma das poucas tentativas sérias de reunir os dez melhores golos de Ronaldo. Valorizo tentativas sérias e eu próprio não adormeço sem tentar seriamente qualquer coisa. Fui buscar umas petitas de caju, preparei água tónica e respectivo, desliguei telemóvel e carreguei no play daquilo. Pode ser hoje, pensei. Pensei mal. Não obstante o valoroso reconhecimento daquele contra-ataque contra o Arsenal, a desilusão acabaria por prevalecer (dado comum às minhas tentativas sérias). Basicamente, este vídeo é feito para resultar persuasivamente junto de um público versado em castelhano, simpatizante de compilações sem Eminem em fundo, ignorante do que seja o Gin ou o futebol de um modo geral.
Comecemos pelo elementar: 1) A omissão do golo de cabeça contra a Roma devia envergonhar qualquer uploader amador do youtube quanto mais o editor de desporto de uma televisão que se faz cobrar (identifico nessa omissão um lamentável sintoma da tentação de definir os atributos de Ronaldo na narrativa estreita de explosão, velocidade, remate -- narrativa análoga daquela que, de um modo mais amplo, exclui os golos de de cabeça no cânone ocidental); 2) O golo contra o Porto, apesar de estrepitoso, jamais mereceria ser considerado o número 1. Desde logo porque, na secção dos remates inverosímeis, o livre do Portsmouth militaria sempre à frente. Além do mais, com a ausência de uma câmara frontal à baliza, o golo no Dragão ficou prejudicadíssimo pela espectacular incompetência da realização; 3) O golo contra a Arménia, [advérbio expressivo de indignação] colocado em segundo, resulta de uma finta ao alcance de qualquer Marco Ferreira, é simplesmente inacreditável que alguém imagine que ele pudesse fazer parte de um top 40 que fará do top 10. Bem, vejam lá o vídeo que até é esforçadinho. (Replay)
Comecemos pelo elementar: 1) A omissão do golo de cabeça contra a Roma devia envergonhar qualquer uploader amador do youtube quanto mais o editor de desporto de uma televisão que se faz cobrar (identifico nessa omissão um lamentável sintoma da tentação de definir os atributos de Ronaldo na narrativa estreita de explosão, velocidade, remate -- narrativa análoga daquela que, de um modo mais amplo, exclui os golos de de cabeça no cânone ocidental); 2) O golo contra o Porto, apesar de estrepitoso, jamais mereceria ser considerado o número 1. Desde logo porque, na secção dos remates inverosímeis, o livre do Portsmouth militaria sempre à frente. Além do mais, com a ausência de uma câmara frontal à baliza, o golo no Dragão ficou prejudicadíssimo pela espectacular incompetência da realização; 3) O golo contra a Arménia, [advérbio expressivo de indignação] colocado em segundo, resulta de uma finta ao alcance de qualquer Marco Ferreira, é simplesmente inacreditável que alguém imagine que ele pudesse fazer parte de um top 40 que fará do top 10. Bem, vejam lá o vídeo que até é esforçadinho. (Replay)
Não sei o que me irrita mais
Não sei o que me irrita mais, se o monstruoso circo mediático que se fez em torno da apresentaçao de Ronaldo, se os marretas que apontam o dedo à monstruosidade da coisa.
Nereida

Sob um rigoroso contrato de exclusividade, Nereida acompanha a apresentação de Ronaldo como comentadora da Antena 3. Nereida é uma das raras pessoas capaz de sustentar a tese de que em cada desgosto amoroso há sempre um património pessoal a reter. (Replay)
Engenharia de Materiais
Na esplanada onde me sento a pensar na possibilidade de um espécime cruzado de J.G Ballard com Humberto Maturana, reparo que 80% das mulheres usam sandálias com cunha em cortiça.
Pinho e Zidane
Manuel Pinho despede-se da política como um dia Zidane se despediu do futebol. Sob o brilho das luzes, ao som da corneta.
As grandes obras públicas
A dificuldade política de Sócrates em avançar com grandes projectos deve-se, em parte, ao que pode haver de contra-intuitivo nos grandes investimentos em tempos de crise (apesar da apregoada racionalidade ecomómica). No entanto, a sondagem em que 2/3 dos portugueses se manifestam contra a imediata execução do TGV, da nova ponto sobre o Tejo e do Aeroporto, é produto de um outro tipo de cepticismo. Primeiro, reserva em relação a uma putativa megalomania nascida da vontade de imitar a Europa civilizada. Segundo, mais importante, reserva em face da assombrosa facilidade com que caíram as firmes certezas do governo em relação à OTA. O facto é prosaico: a passagem do aeroporto da OTA para Alcochete, sob pressão da sociedade civil, representou um golpe mortal no capital de confiança do governo para decidir sobre obras públicas, quanto mais grandes obras públicas. Esqueçam o reformismo autoritário de Correia de Campos, esqueçam as gafes de António Pinho, esqueçam o achicalhamento dos professores às mãos Maria de Lurdes Rodrigues. No dia das eleições, a lógica empreendedora de Sócrates terá contra si o inesquecível "jamais" de Mário Lino.
Benfica
A avaliar pelo cololóquio que presenciei na papelaria da esquina, a proclamada judicialização da realidade social portuguesa foi, até ontem, manifestamente exagerada.


Ponto Contra Ponto II
O João Gonçalves escolheu atirar-se ao meu texto (“Ponto Contra Ponto”) como expediente para defender o Ponto Contra Ponto de Pacheco Pereira. Nada contra. Frentes do ataque? Primeiro pecadilho: o estilo da prosa, “certinha e respeitosa”, ao mesmo tempo capaz de fazer o leitor soçobrar à primeira linha de crítica negativa (agora que o estilo de João Gonçalves foi consagrado por Pacheco Pereira teríamos mais é que lhe imitar a pinta, já se percebe) e capaz de ser apreciada por quem deve ser apreciada, ou seja, imagino, o vasto universo de pessoas menos estimadas pelo João Gonçalves (deduzimos que entre as pessoas menos estimadas pelo João Gonçalves se encontrem grandes quantidades de hermeneutas persistentes).
Segundo pecadilho: acusei Pacheco Pereira de medroso: “Até se fala no «medo»”, diz o João Gonçalves. Verdade que até se fala no medo, mais exactamente quando digo que, entre outras coisa, Pacheco Pereira nos quer converter ao medo pela extrema-esquerda. Creio não dar novidade a ninguém afirmando que Pacheco Pereira, um pouco na linha de Augusto Santos Silva, vem tentando descredibilizar os partidos à esquerda do PS acusando-os de extremismo, acusando-os de estarem fundados numa tentação totalitária, acusando-os de usarem a respeitabilidade democrática como fachada. É no mínimo espectacular (lá estou eu a ser certinho e respeitoso) a passagem que permite ao João Gonçalves aparecer como o cavaleiro andante de Pacheco Pereira para lhe defender a coragem. Para que fique claro, até vejo Pacheco Pereira com alguém corajoso, prova-o o modo como se insurgiu com a linha que a certa altura dominou o PSD, pouco fazendo das acusações de traição.
Mas também acho, e aqui volto a um dos pontos da “análise”, que Pacheco Pereira perde noção de ridículo quando fantasia um clima de censura mediática e de silenciamento pelo politicamente correcto, “os tais tempos difíceis para a opinião”, de modo a poder configurar-se como a voz anti-regime que heroicamente resiste em nome da liberdade. Nesse sentido, a alusão ao post do Filipe Nunes Vicente, onde se faz equivaler a crítica ao Ponto Contra Ponto a uma questão de liberdade de expressão, mostra que ou João Gonçalves partilha da visão paranóica de Pacheco Pereira ou – o que apesar de tudo me tranquiliza – não quis entender linha do que se tem dito sobre o novo programa.(Replay)
Segundo pecadilho: acusei Pacheco Pereira de medroso: “Até se fala no «medo»”, diz o João Gonçalves. Verdade que até se fala no medo, mais exactamente quando digo que, entre outras coisa, Pacheco Pereira nos quer converter ao medo pela extrema-esquerda. Creio não dar novidade a ninguém afirmando que Pacheco Pereira, um pouco na linha de Augusto Santos Silva, vem tentando descredibilizar os partidos à esquerda do PS acusando-os de extremismo, acusando-os de estarem fundados numa tentação totalitária, acusando-os de usarem a respeitabilidade democrática como fachada. É no mínimo espectacular (lá estou eu a ser certinho e respeitoso) a passagem que permite ao João Gonçalves aparecer como o cavaleiro andante de Pacheco Pereira para lhe defender a coragem. Para que fique claro, até vejo Pacheco Pereira com alguém corajoso, prova-o o modo como se insurgiu com a linha que a certa altura dominou o PSD, pouco fazendo das acusações de traição.
Mas também acho, e aqui volto a um dos pontos da “análise”, que Pacheco Pereira perde noção de ridículo quando fantasia um clima de censura mediática e de silenciamento pelo politicamente correcto, “os tais tempos difíceis para a opinião”, de modo a poder configurar-se como a voz anti-regime que heroicamente resiste em nome da liberdade. Nesse sentido, a alusão ao post do Filipe Nunes Vicente, onde se faz equivaler a crítica ao Ponto Contra Ponto a uma questão de liberdade de expressão, mostra que ou João Gonçalves partilha da visão paranóica de Pacheco Pereira ou – o que apesar de tudo me tranquiliza – não quis entender linha do que se tem dito sobre o novo programa.(Replay)
Ponto Contra Ponto
Há várias razões que me poderiam levar a ser um entusiasta do modelo do novo programa de Pacheco Pereira, o Ponto Contra Ponto. Gosto, em primeiro lugar, do modo como o programa rompe com a cadência do tempo televisivo dominante, de como permite o justo curso do pensamento sem o truncar ou sem o disfarçar com o habitual diálogo cénico (como Marcelo e Vitorino na RTP). Nesse sentido, prefiro a honestidade da "missa" à ilusão forjada por um dispositivo de contraditório que, na verdade, apenas reforça a autoridade da homilia, fantasiando-a de diálogo ao mesmo tempo que a adapta aos ritmos da televisão. Em segundo lugar, aprecio o exercício semiótico que Pacheco Pereira ensaia ao tentar olhar para os significados que muitas vezes se encontram subtilmente embutidos na produção mediática. Em terceiro lugar, valorizo o cuidado de Pacheco Pereira na reiterada assunção da sua perspectiva parcial, do seu lugar enquanto mais um produtor de opinião.
Isto dito, vamos ao que não resulta. Melhor dito, às razões que fazem fracassar um modelo que à partida me interessaria. Por muito que isto pareça óbvio: o esboroar deste modelo televisivo liga-se à falta de controlo de Pacheco Pereira sobre o facciosismo da sua opinião, à pulsão quase-libidinal que enceta o substantivo do seu discurso e que raras vezes lhe dá margem para a sofisticação intelectual. Vamos por partes.
Primeiro, a missa de facto constitui um registo honesto, poderia ser a expressão de uma inteligência crítica que, em última instância, até nos poderia aproximar das mundivisões do autor (sem que isto fosse um imperativo, somos capazes de nos dobrar à inteligência crítica de pessoas que não nos converterão a coisa nenhuma e que mesmo assim enriquecem o nosso olhar sobre determinado fenómeno). O problema é que Pacheco Pereira sacrifica qualquer veleidade de inteligência crítica ao modo ostensivo com que nos quer converter, seja à sanha anti-sócrates, seja à campanha pela sua protegida, seja ao medo pela extrema-esquerda, seja à cruzada contra o politicamente correcto. Há todo um hiperventilar de lutas antigas, algumas das quais agora dramatizadas pelo tempo de franca campanha eleitoral. Por exemplo, se a evocação de Vitorino Nemésio pretendia inicialmente defender um certo tipo de televisão, Pacheco Pereira não resistiu em resvalar para uma elegia das suas rugas, alusão cujos paralelos com Ferreira Leite foram mais que gritantes (já no outro dia elogiava Churchill com uma “subtileza” assustadora). Se a alusão ao livro de João Gonçalves pretendia exaltar um estilo de prosa de alguém capaz de ser irritante e desalinhado (demos de barato), Pacheco Pereira conseguiu escolher o mais elementar dos posts apenas porque, sem qualquer concessão ao estilo, nele se falava desabridamente mal de Sócrates. Não vale a pena incomodar Freud. O problema deste tipo de adesão ostensiva a uma trincheira, muito além de qualquer underground proselytism, é que tende a molestar a riqueza intelectual da análise e colide com as próprias tentativas de conversão (a seguir naquela linha tão belicamente filiada, sem contraditório, Pacheco Pereira acabará falando só para os convertidos)
Em segundo lugar, a sedução que o exercício semiótico poderia exercer capitula tanto perante a frugalidade dos exemplos colhidos (o que nos diz que as anúncios de emprego no correio da manhã aumentaram com a crise?), como, mais uma vez, perante o compulsivo dirigismo político que vigia cada período em que Pacheco Pereira aparentemente anda ali em busca dos conotativos – que, logo se percebe, já trazia de casa.
Em terceiro lugar, a assunção do Ponto Contra Ponto como um programa de opinião, sendo importante e de enaltecer, casa mal com a sistemática insinuação segundo a qual Pacheco Pereira se apresenta como uma voz acossada pelos tempos difíceis, pelo politicamente correcto, pela cultura do espectáculo que se apossou dos media, pelo controle governativo da comunicação social, pela inveja e maledicência que milita nos blogues, pelo mau jornalismo que atenta contra a sua seriedade, etc. A presença mediática de Pacheco Pereira, bem como o facto de presidir sem contraditório a um programa de opinião, torna pouco sério o exercício de vitimização a que tantas vezes se entrega.
Pacheco Pereira não teria que ser subtil, não teria que demarcar a semiótica da propaganda, não teria que se sentir menos acossado ou perseguido, tampouco estaria obrigado a ser intelectualmente sofisticado (no que teria por onde, não se duvide). O que resulta estranho é ele entregar-se ao Ponto Contra Ponto aliando tamanho primarismo bélico à ilusão de nos expõe algo da ordem da subtileza ou da finura de raciocínio, resulta estranho apresentar-se em prime time como a vítima célebre, como o representante das vozes silenciadas. (Replay)
Isto dito, vamos ao que não resulta. Melhor dito, às razões que fazem fracassar um modelo que à partida me interessaria. Por muito que isto pareça óbvio: o esboroar deste modelo televisivo liga-se à falta de controlo de Pacheco Pereira sobre o facciosismo da sua opinião, à pulsão quase-libidinal que enceta o substantivo do seu discurso e que raras vezes lhe dá margem para a sofisticação intelectual. Vamos por partes.
Primeiro, a missa de facto constitui um registo honesto, poderia ser a expressão de uma inteligência crítica que, em última instância, até nos poderia aproximar das mundivisões do autor (sem que isto fosse um imperativo, somos capazes de nos dobrar à inteligência crítica de pessoas que não nos converterão a coisa nenhuma e que mesmo assim enriquecem o nosso olhar sobre determinado fenómeno). O problema é que Pacheco Pereira sacrifica qualquer veleidade de inteligência crítica ao modo ostensivo com que nos quer converter, seja à sanha anti-sócrates, seja à campanha pela sua protegida, seja ao medo pela extrema-esquerda, seja à cruzada contra o politicamente correcto. Há todo um hiperventilar de lutas antigas, algumas das quais agora dramatizadas pelo tempo de franca campanha eleitoral. Por exemplo, se a evocação de Vitorino Nemésio pretendia inicialmente defender um certo tipo de televisão, Pacheco Pereira não resistiu em resvalar para uma elegia das suas rugas, alusão cujos paralelos com Ferreira Leite foram mais que gritantes (já no outro dia elogiava Churchill com uma “subtileza” assustadora). Se a alusão ao livro de João Gonçalves pretendia exaltar um estilo de prosa de alguém capaz de ser irritante e desalinhado (demos de barato), Pacheco Pereira conseguiu escolher o mais elementar dos posts apenas porque, sem qualquer concessão ao estilo, nele se falava desabridamente mal de Sócrates. Não vale a pena incomodar Freud. O problema deste tipo de adesão ostensiva a uma trincheira, muito além de qualquer underground proselytism, é que tende a molestar a riqueza intelectual da análise e colide com as próprias tentativas de conversão (a seguir naquela linha tão belicamente filiada, sem contraditório, Pacheco Pereira acabará falando só para os convertidos)
Em segundo lugar, a sedução que o exercício semiótico poderia exercer capitula tanto perante a frugalidade dos exemplos colhidos (o que nos diz que as anúncios de emprego no correio da manhã aumentaram com a crise?), como, mais uma vez, perante o compulsivo dirigismo político que vigia cada período em que Pacheco Pereira aparentemente anda ali em busca dos conotativos – que, logo se percebe, já trazia de casa.
Em terceiro lugar, a assunção do Ponto Contra Ponto como um programa de opinião, sendo importante e de enaltecer, casa mal com a sistemática insinuação segundo a qual Pacheco Pereira se apresenta como uma voz acossada pelos tempos difíceis, pelo politicamente correcto, pela cultura do espectáculo que se apossou dos media, pelo controle governativo da comunicação social, pela inveja e maledicência que milita nos blogues, pelo mau jornalismo que atenta contra a sua seriedade, etc. A presença mediática de Pacheco Pereira, bem como o facto de presidir sem contraditório a um programa de opinião, torna pouco sério o exercício de vitimização a que tantas vezes se entrega.
Pacheco Pereira não teria que ser subtil, não teria que demarcar a semiótica da propaganda, não teria que se sentir menos acossado ou perseguido, tampouco estaria obrigado a ser intelectualmente sofisticado (no que teria por onde, não se duvide). O que resulta estranho é ele entregar-se ao Ponto Contra Ponto aliando tamanho primarismo bélico à ilusão de nos expõe algo da ordem da subtileza ou da finura de raciocínio, resulta estranho apresentar-se em prime time como a vítima célebre, como o representante das vozes silenciadas. (Replay)
Irão: nostalgia recolucionária

Um revolucionário que chega ao poder está industriado a temer, antes de mais, uma revolução que lhe roube o poder. Melhor do que que ninguém, ele sabe da verosimilhança dos sonhos de mudança. Convencido da bondade dos seus ideais, porventura conformado com a necessidade de "pequenos ajustes" à realidade, o revolucionário no poder descrê dos valores que o procuram destronar. No entanto, no seu íntimo, terá mais fé no poder de uma revolução do que muitos daqueles que enchem as ruas movidos por uma desesperada esperança. Essa fé traz-lhe o medo, o medo traz-lhe a ironia da história dialéctica. Um guardião da revolução sabe-se precursor dos revolucionários que se lhe vão apor. (Replay)
Ao real sujeito
Em cada gramática uma primeira pessoa do condicional.
Pinilla
Se o youtube espelhasse a realidade de um modo menos extático, o Matias Fernandez iria certamente para o Real Madrid. Como vai para o Sporting, aguardo expectante pelo filme de que o trailer pouco fala.
P.s. Som: a Banda Sonora de Requiem for a Dream. Não quero dizer nada com isto.
P.s. Som: a Banda Sonora de Requiem for a Dream. Não quero dizer nada com isto.
PT e TVI
A PT, empresa em que o Estado tem uma posição estratégica (golden share ou lá o que é), comprou 30% da Media Capital, como sabeis, grupo económico que possui a TVI. Só por ingenuidade nos permitiríamos a acreditar no alheamento do governo face a um negócio de tal monta (atenção, eu consigo ser extremamente ingénuo, por exemplo, estou realmente convencido que o dente do siso do Cissoko pôs tudo a perder, estou certo que o Bill Murray disse à Scarlett Johansson "no café da esquina em 5 minutos", etc.). Enquanto os analistas políticos se apressam a denunciar uma manobra de controlo mediático potencialmente contra-procedente, porque descarada, a verdade é que a inevitável* mudança da linha editorial da TVI tem três meses para mostrar serviço. No fundo, alguém no governo elaborou um elementar cálculo custo/benefício (talvez o ministro Mário Lino no intervalo das palavras cruzadas, já que em estágio para a reforma), em que o custo é transparência de uma tal manobra de concentração mediática, desfaçatez autoritária a ser denunciada nas colunas de opinião e na blogosfera durante uns dias. O benefício: 3 meses de TVI com rédea curta. Se a compra foi feita exclusivamente pelo interesse económico, simples: má política (mulher de César e assim). (Replay)
*Não é necessária uma actividade censória ou troca de chefias na direcção de informação, a publicitação da compra constitui per se uma eficaz ameaça tutelar; ainda que inconscientemente ficará a pender sobre veleidades editoriais.
P.s. À parte a tentação para incensar a bondade das "mãos nacionais", o Paulo Gorjão oferece uma leitura interessante. Segundo ele, o governo consentiu num bom negócio mesmo sabendo que a compra poderia dar azo a todo o tipo de suspeitas. Sócrates terá sacrificado a sua imagem de pluralista voltairiano em prol do bem do Estado (e dos demais accionistas da PT). Sem ironia, é uma boa antítese. Creia quem quiser.
Lemniscata
R.I.P.
Com o fim do Agrafo extingue-se um dos derradeiros lugares de culto da blogosfera dos começos. Pode ser que o Eduardo volte.

Foto: Eduardo

Foto: Eduardo
Fidelis
Dentro das lógicas atribuições de um blog de esquerda, o Vasco abordava há dias as implicações do Kit de infidelidade enquanto “manifestação possível do sentimento de posse latente e da insegurança na relação”. A propósito, o I de hoje traz uma crónica em que Alberoni faz a apologia de uma fidelidade conjugal a ser fundada não tanto na renúncia como no sentimento e no hábito que nasce da intimidade amorosa. No entanto, conquanto pudessem ficar os leitores contritos com a prescrição do sociólogo (há livros dele que são magníficos receituários), eis que, páginas à frente, no mesmo jornal, o leitor é aliviado de alguma pressão com um paliativo na moda: “Swing, o outro remédio para a infidelidade.” É curioso que ambas as leituras da infidelidade pressuponham a necessidade de dar resposta, refreando ou legislando, aos desejos que ameaçam a monogamia previamente assumida. Esquecem-se do desejo de logro. De facto, imagino, o swing poderá responder à expressa vontade de ter sexo com outras pessoas, mas quem julga que os motivos para a infidelidade nas sociedades contemporâneas se ligam à na necessidade de diversificar parceiros de cópula está, mais uma vez, a ser indulgente com a exaltação desmedida do nexo libertação-sexo (Foucault explica). Imagino que Lacan explique esta outra coisa, mas o swing sequer dialoga com alguns dos móbiles essenciais da traição. A saber, primeiro, a resoluta recusa em legislar liberdades, democratizando-as para o casal, seja numa lógica de cumplicidade como o swing, seja numa relação, declarada aberta, em que cada um dá as suas voltas sem relatório de actividades (o egotista em regime mono-poligâmico aspira privatizar o alargamento de possibilidades no regime de clandestinidade). Em segundo lugar, o swing muito menos responde ao perverso desejo de enganar como afirmação de uma individualidade cansada de negociações bilaterais. Ou seja, o desejo de sexo como desejo de logro não se satisfaz com a legitimação do sexo extra-conjugal. Temos pois que o swing é um paliativo de curto espectro. Já Alberoni convida à coerência da persistência enamorada nos termos do clássico pack monogâmico – dura o pack o tempo da vigência do enamoramento, deduz-ze. É lícito supor que as pessoas não trairiam tanto se pensassem que quando estão a trair o parceiro também estão a desiludir o Alberoni. (Replay)



