Obrigado, Syriza

Graças à Grécia, hoje todos conhecemos com exactidão as fronteiras que definem o mapa da eurozona. A má notícia é que nesse mapa surge o grotesco desenho de uma prisão política à escala continental. Agora que tudo é mais nítido - poderes, poderosos e seus colaboradores - em breve saberemos se a democracia na Europa pode ser perigosa ou se está condenada a ser irrelevante.

A Alemanha e os seus aliados



" O gráfico é do Guardian, a expressão no título - "a Alemanha e os seus aliados" -, de estranha ressonância histórica, resgato-a de Paul Krugman: "the utterly irresponsible campaign of financial intimidation waged by Germany and its allies" Sobre portugal apenas podemos dizer: "Shame on you (us)"

Acordo Ortográfico

Os defensores do acordo ortográfico são uns criacionistas armados em evolucionistas. No altar colocam meia dúzia de linguístas e legisladores que decidiram que era assim, num decreto absurdo, que se fixaria, à vez, o movimento perpétuo do linguajar e a união entre os povos. A língua move-se, é certo, a despeito dos deuses do momento. Quanto à união entre os povos, lusófonos ou outros, não será por graça dos vossos barrocos formalismos.

Porto Alegre


Abril, 2015



Não me custa a admitir: Reza Aslan arrebata mais quando escreve sobre o Cristianismo. Ao escrever sobre o Islão, sem que perca argúcia crítica, ocupa-se, porventura em excesso, a devastar o imenso manto de generalizações e preconceitos que grassam em torno da figura do muçulmano. Essa energia faz-lhe falta para a ousadia narrativa, plena de golpes de asa e primores romanescos, que lhe lemos em "Zealot: The Life and Times of Jesus of Nazareth." Ainda assim, "No god but God" é um texto delicioso para quem se dispõe a conhecer as origens e as correntes contemporâneas da religião fundada por Muhammad/Maomé.

Fabuloso ressentimento

Com o tempo (séculos?...) é possível que o ex-colonizado possa integrar, como «felix culpa», aquilo mesmo que o traumatizou, mas é absurdo e contraproducente supor que a estrutura de ressentimento por ele criada se desfaça da noite colonial para o dia africano. Essa será a história própria e imprevisível do ex-colonizado. A nossa, de ex-colonizadores que não conseguem, no fundo, admitir que o tivessem sido nos termos em que os colonizados no-lo propõem, é a de compreender que o fabuloso ressentimento, de que fomos causadores como povo, é uma ferida de longa supuração, para a qual e por longo tempo, só nós, em particular, não temos bálsamo, pois é de nós que estão feridos. 
«Requiem» por um império que nunca existiu», texto escrito em 1974, em:

Lourenço, Eduardo (2014), Do colonialismo como nosso impensado. Organização e prefácio de Margarida Calafate Ribeiro e Roberto Vecchi. Lisboa: Gradiva.



Musical tépido

Escolher a música certa antes de entrar no banho implica uma premeditação que jamais adivinha as contemplações e murmúrios a que a água de cada dia nos dispõe. Num certo sentido, é uma dificuldade ligada à evidência de que nunca nos banhamos na mesma temperatura (por mais que tentemos o justo acerto das torneiras com o vagar de um relojoeiro despido no frio das lajes).

Uma perninha no TEDx? Pois não

Não sendo um particular adepto do modelo TEDx, achei por bem não renunciar quando o convite me chegou ao correio. Acho que somos assim com muitas coisas que envolvem convites. Foi lá para os 25 de Outubro e, devo confessar, como espectador, passei um dia bem agradável (sou um fácil). Quanto à parte que me calhou, olhem, saiu isto:



Anatomia infantil do colaboracionismo



Paul Krugman, "Greece: The Tie That Doesn’t Bind" (minha tradução):
Há muito que acredito que Matthew Yglesias acertou em algo de realmente importante quando observou que os políticos dos pequenos países têm, em geral, incentivos pessoais para alinharem com as exigências da troika, mesmo que estas sejam contra os interesses dos seus países.

Normalmente seria de supor que a melhor opção de um primeiro-ministro fosse tentar fazer aquelas coisas que lhe dessem hipóteses de reeleição. Mesmo que a perspetiva fosse sombria, esta seria a tua estratégia dominante.

Mas numa era de globalização de União Europei/zação, creio que os líderes dos pequenos países estão, de facto, numa situação algo diferente. Se abandonas o cargo nas boas graças do grupo de Davos, há uma infinidade de números no FMI, na comissão Europeia e sabe lá onde para que podes ser eleito, mesmo se és absolutamente desprezado pelos teus compatriotas. (…)

Mas um genuíno governo de Esquerda (…) é muito diferente – não porque as suas ideias sejam selvagens e insanas, que não são, mas porque os seus membros numa vão ser tidos em alta estima pelo grupo de Davos.

The lunchbox (2013)


Atroz

"Netanyahu anuncia participação na "marcha republicana"

Quando uma forma de liberdade é destituída da relação com todas as outras, entronizada como uma marca de uma putativa civilização, apartada da historia incessante de agressões coloniais, Netanyahu, o artífice mor da recente chacina em Gaza pode comparecer como paladino legítimo da liberdade de expressão. Faz sentido.

Os livros do meu 2014





You were like all the others, come to suck our stories from us, so strangers in far off countries can marvel there's so much pain in the world. Like vultures are you jarnaliss [journalists]. Somewhere a bad thing happens, tears like rain in the wind, and look, here you come, drawn by the smell of blood. Animal's People 

Ali entre o minuto 2:38 e o 2:59 dá-me uma imensa vontade de invadir a Polónia



Disclaimer

Bruno de Carvalho



Depois da polóemica a céu aberto, Bruno de Carvalho reitera que Marco Silva é para ficar. Todos conhecemos aquelas pessoas que se aguentam na relação à espera que o outro dê o próximo passo, seja pela plausível expectativa de não arranjarem melhor (com esta barriguinha a coisa coisa não promete), seja por medo do juízo castigador da história ante um voluntarismo capaz de se revelar suicida. Dizer em voz alta que te amo esperando que me magoes é, para alguns, uma forma sensata prevenir mágoas de maior.


Gugu Mbatha-Raw



‪#‎Bhopal30‬

Esta madrugada cumprem-se 30 anos do desastre de Bhopal, o maior desastre industrial da história. Na cidade onde tudo aconteceu, os sobreviventes ainda lutam por compensações, por elementares cuidados médicos e pela limpeza da vasta área contaminada pelo desastre (como podem ver pelas fotos em baixo, tiradas por mim, em Fevereiro deste ano, a própria fábrica mantém-se perigosamente intocada desde o acidente). Union Carbide e Dow Chemichal são, até hoje, nomes célebres da impunidade do capitalismo racista. Até um dia.




 

ESECTV/RTP2



Partilho uma entrevista que dei à ESECTV - recentemente exibida na RTP2 - a propósito do filme "A Hospitalidade ao Fantasma: Memórias dos Deficientes das Forças Armadas".

Hora do café

Bebo um café manhoso, elaborado por uma máquina comprada na "secção de electrodomésticos" do Pingo Doce, e sinto a crescer em mim essa vaga propensão para o inusitado: ser politicamente pertinente, arriscar versos menos nostálgicos, enviar sinais de vida a quem me toma por desaparecido, cumprir promessas que nunca fiz, fazer promessas que não posso cumprir. Depois passa e cá fico, sereno e pertubável, saudoso das legiões que se alevantam à hora do café.

As coisas como são

Um pouco de fatalismo às vezes aconchega, traz quietude, enternece, amiúda quereres transidos de raiva; nada contra: as coisas que são como são ficam mais assim quando alguém diz "as coisas são como são". Mas logo vem um tempo em que a quietude, cansada da férrea guarida da desesperança, pode achar novo acerto: que o insuportável não é tanto, que o insuperável talvez menos seja, que coisas estão menos como eram. Que sim, que há leis que ditam irremediáveis, obscenos cataclismos gizados por um qualquer transcendente, que sim, que há fins que não dilaceram mais. Que sim, que há fins equívocos, prematuramente consentidos por um imprevidente desejo de aconchego (uma das formas mais comuns do obsceno transcendente).

Pemba


Pemba, Cabo delgado, Moçambique. 2012.

Cover

Veraneando aquele bastante, reparo num inédito rigor cénico no modo como, por estes dias, as pessoas tiram fotos nos espaços públicos. Namorados convertidos em fotógrafos/as semi-profissionais captando poses decalcadas de uma Adriana Lima (ou de um David Beckham), selfies repetidos à exaustão, cervejas fotografadas antes de estreadas, etc.

Nada de novo neste ímpeto memorialista: as fotografias fixam momentos e as possibilidades de arquivo foram inflacionadas pelo advento digital. O que é novo é exactamente o arquivo: não mais o álbum de família, mas a timeline do facebook ou, em caso de manifesto sucesso, a capa ou a fotografia de perfil. O arquivo em mente muda o processo: a posteridade não se passa num tempo abstracto, a posteridade é um upload logo à noite.

Não me interpretem mal, se eu mandasse o nu seria uma requisito para entrada no facebook (um selfie nu com uma geladinha no sítio certo).

La Jalousie



 La Jalousie/Ciúme, 2013, Philippe Garrel

O encanto de uma intimidade esmagada contra os espaços exíguos dos dias cansados, esse, está lá todo. Mas falta ali a aparição de um amor convincente, minimamente capaz de justificar a obsessão (mais o desamparo) que, assim do nada, vem em socorro do título do filme. Pode ser que às vezes seja mesmo assim, sem aviso, sem que nada o justifique.


Rúben Neves



Temos de ter cuidado para não fazer ao Rúben Neves o que os sportinguistas fizeram ao William Carvalho. Não é preciso conhecer os malefícios do ultra-romantismo para saber que a euforia rouba margem a qualquer promessa, aniquilando-a enquanto possibilidade ungida nos seus próprios termos. Dito isto, qualquer portista saído da maternidade nos dias que correm não terá em que hesitar; o nome do filho será Rúben Neves, pois claro.

A Hospitalidade ao Fantasma: Memórias dos Deficientes das Forças Armadas



Documentário realizado no âmbito do projeto "Vidas Marcadas pela História: a Guerra Colonial Portuguesa e os Deficientes das Forças Armadas" 

Banco de trás

Muito por alusão aos rituais iniciáticos da adolescência americana, a designação "banco de trás" ficou conotada com o encontro sexual furtivo: o "banco de trás" é sobretudo o lugar dos "amassos". No entanto, do ponto de vista da iconografia cinematográfica é um lugar nobre: de grandes dúvidas, de revelações e de equívocos próprios dos amores maduros. O que ali se representa são amores mais majestáticos, porque impróprios para gente amassada.

Breakfast at Tiffany's (1961)

Written on the Wind (1956)

In the Mood for Love (2000)






Jeune & Jolie



Pode-se dizer que 'Jeune & jolie' (François Ozon, 2013) pouco mais é do que uma síntese (sem particular rasgo) de 'À nos amours' (Maurice Pialat, 1983) com 'Belle de Jour' (Luis Buñuel, 1967).

 A crítica ao tédio num certo 'modo burguês de funcionar' junta-se ao fascínio pelos usos subversivos de uma sexualidade subalterna, assim se compondo um improvável feiticismo, obsessivamente explorado pelo cinema francês (pela força dos precursores, queremos supor - Catherine Deneuve, pois claro).

Conchita Wurst













Quem deplora a notoriedade de Conchita Wurst, alegando um retorno aos freak shows, estabelece tortuoso paralelo mal disfarçando homofobia ou - na melhor das hipóteses - conservadorismo estético. 'Freak' é uma cultura capaz de lacerar a diferença por acreditar tão completamente nos binómios constitutivos de identidades discretas: os binómios que nos dizem que roupa vestir e que pêlo rapar. Conchita tem barba, mas também tem uma ideia política acerca do antiquíssimo circo do preconceitos que sempre se amontoa à volta do espectáculo da diferença

Uma imensa vitória semântica: "Saída Limpa"

Cada vez que dizemos "saída limpa" para renunciar à ideologia que a baptizou, ajoelhamos perante uma imagem de barro húmido. Quem denúncia o triunfalismo da "saída limpa" capitula perante a linguagem que define os termos do que é criticável. A popularização do nome da coisa como "saída limpa" é, reconheçamos, uma imensa vitória simbólica dos poderes neoliberais e dos média que os servem (entre eles - contra mim falo - as redes sociais dobradas à hegemonia acabada de inventar).

Sob o épico da recuperação de soberania estatal seguirá o suplício dos esmagados por um estado servil, agora camuflado por miríficos triunfos económicos e por feitos semânticos realmente assombrosos.

The Shock Doctrine: The Rise of Disaster Capitalism




The idea that market crashes can act as catalysts for revolutionary change has a long history on the far left, most notably in the Bolshevik theory that hyperinflation, by destroying the value of money, takes the masses one step closer to the destruction of capitalism itself. This theory explains why a certain breed of sectarian leftist is forever calculating the exact conditions under which capitalism will reach “the crisis,” much as evangelical Christians calibrate signs of the coming Rapture. In the mid-eighties, this Communist idea began to experience a powerful revival, picked up by Chicago School economists who argued that just as market crashes could precipitate left-wing revolutions, so too could they be used to spark right-wing counterrevolutions, a theory that became known as “the crisis hypothesis.”

Benfica: 3 Porto: 1

Para todos os benfiquistas que um dia renegaram Jorge Jesus, o galo cantará 3 vezes. Conheço casos.

Ontem tive dificuldade em adormecer por causa da derrota do Porto. É apenas um jogo, digo-me, para mais numa época em que, à boleia de uma passagem pelas índias orientais, consegui anestesiar a sensibilidade histriónica aos destinos da bola (lá era mais cricket). O futebol não é a minha vida nem me merece dores que sei espúrias.

Mas não tem de haver simetria. A tristeza não nos merece mas a alegria justifica-nos. No futebol há que ser oportunista: cínico com a dor, sincero na euforia. Como limpasse custosamente a dor e não tivesse por onde a euforia, lembrei-me da alegria merecida por Jorge Jesus. Os benfiquistas que depois da tragédia da época passada o quiseram ver pelas costas, souberam ser cínicos e hoje sabem ser eufóricos. É futebol, nada contra. Mas apesar de tudo, a sinceridade dorida permite uma euforia sem cinismo, sem o eco do galo que cantará três vezes. E essa alegria pertence, quase exclusivamente, ao homem que o ano passado, sozinho, caiu de joelhos. Abracei-me à almofada e adormeceu-me a convicção que Luís Castro é o meu treinador não obstante o cumular de fracassos (não o diria de Paulo Fonseca). Confortou-me saber que na euforia do ano passado uma dor me atravessou: a empatia com a desgraça de Jesus (fica aí link com post de prova). Mas aparentemente a euforia não se merece, vive-se. Pouco importa o cinismo, dirão. É futebol.

Named Desire

Entre outras coisas, Tennessee Williams tinha um raro talento para dar títulos às suas peças. O meu top 3 (hierarquia de títulos, não de guiões ou de filmes):
1- 'The Night of the Iguana'
2- 'Suddenly, Last Summer'
3- 'A Streetcar Named Desire'
Menção honrosa: 'Sweet Bird of Youth'



Roque Santeiro

Morreu José Wilker. Sem mais regressos a qualquer Asa Branca, nossa infância mal enterrada segue crente na majestade tardia dos retornos.


Saree Ke Fall Sa

Bhopal, Índia

Acordamos com o Almuadem (a voz do chamamento para a oração na mesquita aqui ao lado) e adormecemos, o mais das vezes, sob a batida de "Saree Ke Fall Sa", o hit que por estes dias Bollywood empresta ao afã casadoiro da vizinhança. A bem da verdade, o Almuadem vem cedo demais para acordar almas indolentes, pouco vigilantes, ou que simplesmente não estão para aí viradas; mas vem na hora certa para, qual sacro lullaby, embalar aquele segundo sono (quando a consciência do torpor transforma a lassidão em inércia consentida).

Já o Saree Ke Fall Sa, chamamento porventura excessivamente repetido, adormece-nos no cansaço próprio de um fim de festa, uma festa a que não fomos mas de onde viemos, escolhendo a música certa para sair - hesitamos sempre - que o Almuadem é daqui a nada e amanhã há mais quem case.

Animal's People


"Forget sex"? What fucking hypocrisy! Sex was the one thing I could never forget. my second impossible wish. My first wish was to stand upright, but why did I want that if not because it led to the second?

Bhojpur



Juventude em Marcha





Bhopal, Índia.

Sanchi,




Rush Hour Gloom


Bhopal, India.

Uma espécie de 'India Song'.



Nos próximos tempos chamarei casa a uma ONG situada a 300 metros do local onde aconteceu o maior acidente industrial da história: o desastre de Bhopal. Cento e oitenta pessoas recebem cuidado médico aqui todos os dias. O passado não prescreve.

Paulo Fonseca

Apresento a minha versão do que, face ao plantel existente, deveria ser o Porto nas competições internas:

 

O duplo pivot sumariamente abolido;
Lucho desce para a a zona da primeira fase de construção;
Ghilas faz de Lisandro (emulando o tempo em que Lisandro fazia de falso extremo);
Consoante os momentos de forma, Varela rodaria com kelvin e Licá;
Nos jogos mais competitivos (Champions, Benfica e Sporting), seria de equacionar colocar Defour, Herrera ou Josué no lugar de Lucho, Lucho no lugar de Quintero, passando Quintero para 12º jogador.

Se Paulo Fonseca continuar, inamovível, a acreditar nas suas ideias, então, fatalmente, acabará por as ver brilhar na Playstation.

Sentido Sul

"Sentido Sul - A Cegueira no Espírito do Lugar"


Bruno Sena Martins

Deficiência e emancipação social

A quem possa interessar, já está online a versão completa do documentário "Deficiência e emancipação social: para uma crise da normalidade".




Como forma de chegar a um público mais vasto, o filme documental pretende ser um contributo, ainda que modesto, na denúncia de uma concepção fatalista de deficiência, culturalmente dominante, que enfatiza as incapacidades funcionais, naturalizando a exclusão e o silenciamento.

A crise da normalidade, assim entendida, é um chamamento a uma transformação sociopolítica que, levando a sério as vozes e os direitos das pessoas com deficiência, ponha fim à trivialização do sofrimento.

O filme foi produzido no âmbito do Projecto de Investigação “Da lesão vértebro-medular à inclusão social: a deficiência enquanto desafio pessoal e sociopolítico”.

Paulo Fonseca

Na minha relação com o F.C. Porto 2013/2014 domina, para já, a apatia de quem se percebe a salvo de emoções extremas.
 O Porto de Paulo Fonseca ainda não foi injustamente acossado para que o chamamento à sua defesa me confira mínimo estímulo para insultar os seus detractores - como aconteceu com Jesualdo e Vítor Pereira (Paulo Fonseca teve direito a estado de graça e, pese embora o buraco negro imposto pela transferência de Moutinho, pese embora a habitual histeria do adepto de futebol, a crítica tem sido proporcionada).

Ainda não me cativou para uma qualquer ideia futebolística ou discursiva que me violentasse às alturas de uma entrega passional, nenhuma adesão a uma "sensibilidade estético-política" - como aconteceu com Mourinho, Villas-Boas e, mais recentemente, na prefiguração do minuto 92).

 Ainda não foi tão contra-intuitivo, absurdo ou inepto que me fizesse desejar uma destruição criadora - como aconteceu com Co Adriaanse, Octávio, Fernandez, Couceiro ou Del Neri.

 Enfim, agradeço a Paulo Fonseca, nestes meses, a serenidade de uma vida destituída de paixões. Não que o possa culpar por tudo.

Sublinhados Verticais



Pleasure Delayer

Mais do que deixar a gema para o fim, guardados contra o hedonismo mal estudado, sabei que o supremo retardador do prazer consiste em deixar três romances a escassas páginas do final para, numa soturna tarde de sábado, cumprir, enfim, épico 'triplete'.

 

[Imagem de Vanilla Sky, filme que haveria de celebrizar a expressão 'pleasure delayer':
'Dr. Curtis McCabe: And you didn't immediately wanna sleep with her?
David: Well, you know, I'm a pleasure delayer.'

 Já a vulgarização de 'triplete', imaginais, devemo-la inteiramente a Pepe Guardiola].

Info

Todos deveríamos ter na parede do quarto uma ampla infografia, baseada em aturada colecção de dados, representando a nossa propensão sazonal para o amor. Escusávamos de sair à rua nos dias críticos.

Zealot

Cabe dizer que o Reza Aslan é um excelente contador de histórias (além de um desconstrutor bem documentado).


Opus Lolita

Encontro na caixa de correio este estranho concílio: Lolita, de Nabokov, e o boletim informativo do Opus Dei. Escusado será dizer que uma destas encomendas veio ao engano.


RIP GoogleReader

Pessoas acostumadas a seguir as actualizações de blogues e afins via GoogleReader (extinção prevista para 1 de Julho), podeis transferir os vossos dados para outras plataformas, tais como o feedly.

Before Midnight



 O perigo das sequelas é que, invocando-nos de novo, cumpram a traição que nos despoje de um passado que tanto gostámos de cultuar. Lá acabamos por arriscar, talvez pelo medo de nos termos tornado inteiramente indiferentes ao rufar dos tambores. Não tornámos. Nem foi desta que a traição se cumpriu. Longe disso.