As coisas como são

Um pouco de fatalismo às vezes aconchega, traz quietude, enternece, amiúda quereres transidos de raiva; nada contra: as coisas que são como são ficam mais assim quando alguém diz "as coisas são como são". Mas logo vem um tempo em que a quietude, cansada da férrea guarida da desesperança, pode achar novo acerto: que o insuportável não é tanto, que o insuperável talvez menos seja, que coisas estão menos como eram. Que sim, que há leis que ditam irremediáveis, obscenos cataclismos gizados por um qualquer transcendente, que sim, que há fins que não dilaceram mais. Que sim, que há fins equívocos, prematuramente consentidos por um imprevidente desejo de aconchego (uma das formas mais comuns do obsceno transcendente).

Pemba


Pemba, Cabo delgado, Moçambique. 2012.

Cover

Veraneando aquele bastante, reparo num inédito rigor cénico no modo como, por estes dias, as pessoas tiram fotos nos espaços públicos. Namorados convertidos em fotógrafos/as semi-profissionais captando poses decalcadas de uma Adriana Lima (ou de um David Beckham), selfies repetidos à exaustão, cervejas fotografadas antes de estreadas, etc.

Nada de novo neste ímpeto memorialista: as fotografias fixam momentos e as possibilidades de arquivo foram inflacionadas pelo advento digital. O que é novo é exactamente o arquivo: não mais o álbum de família, mas a timeline do facebook ou, em caso de manifesto sucesso, a capa ou a fotografia de perfil. O arquivo em mente muda o processo: a posteridade não se passa num tempo abstracto, a posteridade é um upload logo à noite.

Não me interpretem mal, se eu mandasse o nu seria uma requisito para entrada no facebook (um selfie nu com uma geladinha no sítio certo).

La Jalousie



 La Jalousie/Ciúme, 2013, Philippe Garrel

O encanto de uma intimidade esmagada contra os espaços exíguos dos dias cansados, esse, está lá todo. Mas falta ali a aparição de um amor convincente, minimamente capaz de justificar a obsessão (mais o desamparo) que, assim do nada, vem em socorro do título do filme. Pode ser que às vezes seja mesmo assim, sem aviso, sem que nada o justifique.


Rúben Neves



Temos de ter cuidado para não fazer ao Rúben Neves o que os sportinguistas fizeram ao William Carvalho. Não é preciso conhecer os malefícios do ultra-romantismo para saber que a euforia rouba margem a qualquer promessa, aniquilando-a enquanto possibilidade ungida nos seus próprios termos. Dito isto, qualquer portista saído da maternidade nos dias que correm não terá em que hesitar; o nome do filho será Rúben Neves, pois claro.

A Hospitalidade ao Fantasma: Memórias dos Deficientes das Forças Armadas



Documentário realizado no âmbito do projeto "Vidas Marcadas pela História: a Guerra Colonial Portuguesa e os Deficientes das Forças Armadas" 

Banco de trás

Muito por alusão aos rituais iniciáticos da adolescência americana, a designação "banco de trás" ficou conotada com o encontro sexual furtivo: o "banco de trás" é sobretudo o lugar dos "amassos". No entanto, do ponto de vista da iconografia cinematográfica é um lugar nobre: de grandes dúvidas, de revelações e de equívocos próprios dos amores maduros. O que ali se representa são amores mais majestáticos, porque impróprios para gente amassada.

Breakfast at Tiffany's (1961)

Written on the Wind (1956)

In the Mood for Love (2000)






Jeune & Jolie



Pode-se dizer que 'Jeune & jolie' (François Ozon, 2013) pouco mais é do que uma síntese (sem particular rasgo) de 'À nos amours' (Maurice Pialat, 1983) com 'Belle de Jour' (Luis Buñuel, 1967).

 A crítica ao tédio num certo 'modo burguês de funcionar' junta-se ao fascínio pelos usos subversivos de uma sexualidade subalterna, assim se compondo um improvável feiticismo, obsessivamente explorado pelo cinema francês (pela força dos precursores, queremos supor - Catherine Deneuve, pois claro).

Conchita Wurst













Quem deplora a notoriedade de Conchita Wurst, alegando um retorno aos freak shows, estabelece tortuoso paralelo mal disfarçando homofobia ou - na melhor das hipóteses - conservadorismo estético. 'Freak' é uma cultura capaz de lacerar a diferença por acreditar tão completamente nos binómios constitutivos de identidades discretas: os binómios que nos dizem que roupa vestir e que pêlo rapar. Conchita tem barba, mas também tem uma ideia política acerca do antiquíssimo circo do preconceitos que sempre se amontoa à volta do espectáculo da diferença

Uma imensa vitória semântica: "Saída Limpa"

Cada vez que dizemos "saída limpa" para renunciar à ideologia que a baptizou, ajoelhamos perante uma imagem de barro húmido. Quem denúncia o triunfalismo da "saída limpa" capitula perante a linguagem que define os termos do que é criticável. A popularização do nome da coisa como "saída limpa" é, reconheçamos, uma imensa vitória simbólica dos poderes neoliberais e dos média que os servem (entre eles - contra mim falo - as redes sociais dobradas à hegemonia acabada de inventar).

Sob o épico da recuperação de soberania estatal seguirá o suplício dos esmagados por um estado servil, agora camuflado por miríficos triunfos económicos e por feitos semânticos realmente assombrosos.

The Shock Doctrine: The Rise of Disaster Capitalism




The idea that market crashes can act as catalysts for revolutionary change has a long history on the far left, most notably in the Bolshevik theory that hyperinflation, by destroying the value of money, takes the masses one step closer to the destruction of capitalism itself. This theory explains why a certain breed of sectarian leftist is forever calculating the exact conditions under which capitalism will reach “the crisis,” much as evangelical Christians calibrate signs of the coming Rapture. In the mid-eighties, this Communist idea began to experience a powerful revival, picked up by Chicago School economists who argued that just as market crashes could precipitate left-wing revolutions, so too could they be used to spark right-wing counterrevolutions, a theory that became known as “the crisis hypothesis.”

Benfica: 3 Porto: 1

Para todos os benfiquistas que um dia renegaram Jorge Jesus, o galo cantará 3 vezes. Conheço casos.

Ontem tive dificuldade em adormecer por causa da derrota do Porto. É apenas um jogo, digo-me, para mais numa época em que, à boleia de uma passagem pelas índias orientais, consegui anestesiar a sensibilidade histriónica aos destinos da bola (lá era mais cricket). O futebol não é a minha vida nem me merece dores que sei espúrias.

Mas não tem de haver simetria. A tristeza não nos merece mas a alegria justifica-nos. No futebol há que ser oportunista: cínico com a dor, sincero na euforia. Como limpasse custosamente a dor e não tivesse por onde a euforia, lembrei-me da alegria merecida por Jorge Jesus. Os benfiquistas que depois da tragédia da época passada o quiseram ver pelas costas, souberam ser cínicos e hoje sabem ser eufóricos. É futebol, nada contra. Mas apesar de tudo, a sinceridade dorida permite uma euforia sem cinismo, sem o eco do galo que cantará três vezes. E essa alegria pertence, quase exclusivamente, ao homem que o ano passado, sozinho, caiu de joelhos. Abracei-me à almofada e adormeceu-me a convicção que Luís Castro é o meu treinador não obstante o cumular de fracassos (não o diria de Paulo Fonseca). Confortou-me saber que na euforia do ano passado uma dor me atravessou: a empatia com a desgraça de Jesus (fica aí link com post de prova). Mas aparentemente a euforia não se merece, vive-se. Pouco importa o cinismo, dirão. É futebol.

Named Desire

Entre outras coisas, Tennessee Williams tinha um raro talento para dar títulos às suas peças. O meu top 3 (hierarquia de títulos, não de guiões ou de filmes):
1- 'The Night of the Iguana'
2- 'Suddenly, Last Summer'
3- 'A Streetcar Named Desire'
Menção honrosa: 'Sweet Bird of Youth'



Roque Santeiro

Morreu José Wilker. Sem mais regressos a qualquer Asa Branca, nossa infância mal enterrada segue crente na majestade tardia dos retornos.


Saree Ke Fall Sa

Bhopal, Índia

Acordamos com o Almuadem (a voz do chamamento para a oração na mesquita aqui ao lado) e adormecemos, o mais das vezes, sob a batida de "Saree Ke Fall Sa", o hit que por estes dias Bollywood empresta ao afã casadoiro da vizinhança. A bem da verdade, o Almuadem vem cedo demais para acordar almas indolentes, pouco vigilantes, ou que simplesmente não estão para aí viradas; mas vem na hora certa para, qual sacro lullaby, embalar aquele segundo sono (quando a consciência do torpor transforma a lassidão em inércia consentida).

Já o Saree Ke Fall Sa, chamamento porventura excessivamente repetido, adormece-nos no cansaço próprio de um fim de festa, uma festa a que não fomos mas de onde viemos, escolhendo a música certa para sair - hesitamos sempre - que o Almuadem é daqui a nada e amanhã há mais quem case.

Animal's People


"Forget sex"? What fucking hypocrisy! Sex was the one thing I could never forget. my second impossible wish. My first wish was to stand upright, but why did I want that if not because it led to the second?

Bhojpur



Juventude em Marcha





Bhopal, Índia.

Sanchi,




Rush Hour Gloom


Bhopal, India.

Uma espécie de 'India Song'.



Nos próximos tempos chamarei casa a uma ONG situada a 300 metros do local onde aconteceu o maior acidente industrial da história: o desastre de Bhopal. Cento e oitenta pessoas recebem cuidado médico aqui todos os dias. O passado não prescreve.

Paulo Fonseca

Apresento a minha versão do que, face ao plantel existente, deveria ser o Porto nas competições internas:

 

O duplo pivot sumariamente abolido;
Lucho desce para a a zona da primeira fase de construção;
Ghilas faz de Lisandro (emulando o tempo em que Lisandro fazia de falso extremo);
Consoante os momentos de forma, Varela rodaria com kelvin e Licá;
Nos jogos mais competitivos (Champions, Benfica e Sporting), seria de equacionar colocar Defour, Herrera ou Josué no lugar de Lucho, Lucho no lugar de Quintero, passando Quintero para 12º jogador.

Se Paulo Fonseca continuar, inamovível, a acreditar nas suas ideias, então, fatalmente, acabará por as ver brilhar na Playstation.

Sentido Sul

"Sentido Sul - A Cegueira no Espírito do Lugar"


Bruno Sena Martins

Deficiência e emancipação social

A quem possa interessar, já está online a versão completa do documentário "Deficiência e emancipação social: para uma crise da normalidade".




Como forma de chegar a um público mais vasto, o filme documental pretende ser um contributo, ainda que modesto, na denúncia de uma concepção fatalista de deficiência, culturalmente dominante, que enfatiza as incapacidades funcionais, naturalizando a exclusão e o silenciamento.

A crise da normalidade, assim entendida, é um chamamento a uma transformação sociopolítica que, levando a sério as vozes e os direitos das pessoas com deficiência, ponha fim à trivialização do sofrimento.

O filme foi produzido no âmbito do Projecto de Investigação “Da lesão vértebro-medular à inclusão social: a deficiência enquanto desafio pessoal e sociopolítico”.

Paulo Fonseca

Na minha relação com o F.C. Porto 2013/2014 domina, para já, a apatia de quem se percebe a salvo de emoções extremas.
 O Porto de Paulo Fonseca ainda não foi injustamente acossado para que o chamamento à sua defesa me confira mínimo estímulo para insultar os seus detractores - como aconteceu com Jesualdo e Vítor Pereira (Paulo Fonseca teve direito a estado de graça e, pese embora o buraco negro imposto pela transferência de Moutinho, pese embora a habitual histeria do adepto de futebol, a crítica tem sido proporcionada).

Ainda não me cativou para uma qualquer ideia futebolística ou discursiva que me violentasse às alturas de uma entrega passional, nenhuma adesão a uma "sensibilidade estético-política" - como aconteceu com Mourinho, Villas-Boas e, mais recentemente, na prefiguração do minuto 92).

 Ainda não foi tão contra-intuitivo, absurdo ou inepto que me fizesse desejar uma destruição criadora - como aconteceu com Co Adriaanse, Octávio, Fernandez, Couceiro ou Del Neri.

 Enfim, agradeço a Paulo Fonseca, nestes meses, a serenidade de uma vida destituída de paixões. Não que o possa culpar por tudo.

Sublinhados Verticais



Pleasure Delayer

Mais do que deixar a gema para o fim, guardados contra o hedonismo mal estudado, sabei que o supremo retardador do prazer consiste em deixar três romances a escassas páginas do final para, numa soturna tarde de sábado, cumprir, enfim, épico 'triplete'.

 

[Imagem de Vanilla Sky, filme que haveria de celebrizar a expressão 'pleasure delayer':
'Dr. Curtis McCabe: And you didn't immediately wanna sleep with her?
David: Well, you know, I'm a pleasure delayer.'

 Já a vulgarização de 'triplete', imaginais, devemo-la inteiramente a Pepe Guardiola].

Info

Todos deveríamos ter na parede do quarto uma ampla infografia, baseada em aturada colecção de dados, representando a nossa propensão sazonal para o amor. Escusávamos de sair à rua nos dias críticos.

Zealot

Cabe dizer que o Reza Aslan é um excelente contador de histórias (além de um desconstrutor bem documentado).


Opus Lolita

Encontro na caixa de correio este estranho concílio: Lolita, de Nabokov, e o boletim informativo do Opus Dei. Escusado será dizer que uma destas encomendas veio ao engano.


RIP GoogleReader

Pessoas acostumadas a seguir as actualizações de blogues e afins via GoogleReader (extinção prevista para 1 de Julho), podeis transferir os vossos dados para outras plataformas, tais como o feedly.

Before Midnight



 O perigo das sequelas é que, invocando-nos de novo, cumpram a traição que nos despoje de um passado que tanto gostámos de cultuar. Lá acabamos por arriscar, talvez pelo medo de nos termos tornado inteiramente indiferentes ao rufar dos tambores. Não tornámos. Nem foi desta que a traição se cumpriu. Longe disso.

Emily Blunt

Ver todos filmes em que entra a Emily Blunt apenas porque a Emily Blunt entra é, como no passado se comprovou, um princípio operacional em tudo duvidoso. Mas às vezes ser perseverante - ou vicioso - compensa.

 'Your Sister's Sister' (2011) é uma estimável surpresa.

 

Etiquetas:


Jorge Jesus de joelhos



 A imagem de Jorge Jesus de joelhos, transmitida em directo pela Sporttv, foi demasiado pungente, mesmo para quem lhe criticou a soberba de outras épocas. Por isso, para mim, nenhuma justiça poética se entreviu naquele momento. A justiça que se cumpre com excesso deixa de o ser e, de alguma forma, sinto sinceramente que Jesus não merecia aquilo (não com tamanho dramatismo). Jesus viu partir Witsel, Javi Garcia, Bruno César, Nolito. Potenciou Matic, Enzo Perez, Lima, Melgarejo. Esteve todo o início de época sem Luisão. Ficou sem Champions porque o Barcelona se lembrou de ir perder a Glasgow. Manteve-se em 3 frentes até ao fim, chamando noviços ao 11 (André Almeida, André Gomes, Urreta, Roderik, Luisinho). Trouxe o balneário unido mesmo com o muito banco dos consagrados (Carlos Martins, Aimar, Cardozo). Não posso desejar que o Porto falhe na última jornada, não posso sonegar o quanto festejei aquele golo no último minuto. Mas, mais do que nunca, desejo sinceramente que Benfica ganhe ao Chelsea. Quanto a Jesus, se o Benfica cometer o erro de não renovar, não me surpreende que um grande da Europa o venha buscar. Pode não falar línguas, mas de futebol espectáculo entende ele.

Queima das Fitas de Coimbra

O repúdio com que os ex-estudantes olham para a festas académicas não é separável de uma nostalgia mal resolvida. Nenhuma crítica social, nenhuma distância cautelar em relação as massas alienadas, subsume inteiramente a saudade de um tempo que, certa ou erradamente, se confunde com a juventude (Sweet Bird of Youth, pois). Renegar tão completamente a juvenília é o erro infantil da idade que se julga adulta.



Da mundanidade bíblica

George Steiner, 'Um Prefácio à Bíblia Hebraica', Paixão Intacta (1996)
'O Antigo Testamento e o Novo são acumulações de mitos, fábulas, lendas, códigos legislativos, tratados morais, escritos eróticos, litúrgicos e rituais, crónicas históricas com intentos políticos e sagas tipológicas alinhavadas umas às outras, mais ou menos contingentemente, no decurso de longos séculos em cenários sócio-étnicos completamente diferentes e por uma multidão de mãos. Essa montagem abunda em disparates, autocontradições, barbaridades arcaicas, repetições, desigualdades de talento discursivo-espiritual, de molde a tomar a mera noção de autoria divina e de harmonia completamente ridículas. Homens e mulheres — alguns, sem dúvida, de rara visão moral e habilidade literária — produziram estes textos diversos de maneiras perfeitamente natural e, por consequência, inteiramente comparáveis com os de outros grandes pensadores, poetas, historiadores e legisladores, em numerosas culturas e épocas. Podemos estar a olhar para material cuja data e proveniência permanecem sem solução. Mas trata-se de material mundano, no sentido exacto da palavra. E inteiramente do nosso mundo, e da nossa imaginação e composição.'
Passagem prodigiosa de Steiner sobre a Bíblia. O reconhecimento da mundanidade da Bíblia (ou de outros livros sagrados) não carrega o ímpeto de desqualificação da fé, mas da arbitrariedade dos poderes erigidos sobre a 'palavra de Deus'.

Sent mail

Na troca de e-mails profissionais entre desconhecidos, a formalidade tende a decair a cada envio. Qual ordem natural das coisas, o "Ex.mo" passa a "Caro", os "melhores cumprimentos" passam a "abraço" (e por aí adiante).

 No fundo, a formalidade é utilizada como um bluff na expectativa que ninguém devolva tão exaltada reverência. Chamemos-lhe o que quisermos ('farsa colectiva', 'pose institucional', 'timidez burocrática', 'anacronismo hierarquizante'), permanece o facto: já ninguém tem jogo para isto.

Boston, Bagdad

Lives are supported and maintained differently, and there are radically different ways in which human physical vulnerability is distributed across the globe. Certain lives will be highly protected, and the abrogation of their claims to sanctity will be sufficient to mobilize the forces of war. Other lives will not find such fast and furious support and will not even qualify as "grievable." Judith Butler, Precarious Life

Por um mínimo de proporcionalidade no devido lamento das vítimas, lembro que hoje morreram mais de 30 pessoas no Iraque após um surto de ataques bombistas. Repito, hoje. Repito, pessoas ("apesar" de não serem americanos ou "ocidentais").  Ondas de choque? Nenhumas. São as vidas dos "outros".



As vírgulas fazem-me mole

Fico sinceramente comovido quando dou por mim a apagar um post esforçado - vírgulas no sítio, gralhas aparadas, insulto estilizado - só porque, segundos antes de o publicar, percebo que afinal já não concordo comigo.

Emily

"As minhas grandes desventuras neste mundo têm sido as desventuras do Heathcliff, e eu vi-as e senti-as desde o princípio: nele reside o meu maior apego a existência. Se tudo perecesse e ele continuasse, eu também continuaria a existir; se tudo permanecesse e ele fosse aniquilado, o universo tornar-se-ia para mim um mundo estranho, de que eu pareceria não fazer parte. O meu amor ao Linton assemelha-se a folhagem dos bosques: o tempo o transformará, bem o pressinto, como o Inverno transforma as árvores. 0 meu amor ao Heathcliff lembra os penhascos eternos que a terra cobre: uma fonte de delícias, quase invisível mas essencial. Nelly, eu sou Heathcliff!"

 

Mais um argentino na Europa às ordens de Jesus.

Unigénita

Há pessoas muito interessantes na vida real, mas que, no fundo, não têm perfil no facebook.

D. Umberto



D. Umberto (1952) conta-nos a história de um reformado subitamente atirado para a miséria após uma drástica redução do valor da sua pensão (instrutivamente, o filme começa com uma carga policial sobre uma manifestação de reformados). Despejado, humilhado, D. Umberto deambula, hesitando  suicidar-se por não saber o que será de Flick, seu cão e companheiro de velhice.

Parece que Filipe Pinhal (terá visto reduzida a sua reforma para 14 mil euros) encabeça um movimento de reformados indignados, seguindo a linha antes trilhada por Aníbal Silva, o reformado presidencial que mal tem para as suas despesas. Sem vergonha, falam espezinhando olimpicamente o destino de tantos reformados que por excesso de vergonha jamais falarão da miséria em que caíram. Que saiam de casa ou dos seus palácios, que vejam o D. Umberto, que colham a sensibilidade social onde melhor a acharem. Mas que vão gozar com outros.

Varane

Não é fácil explicar às pessoas, contra quaisquer pretensões à posteridade, que o momento do jogo teve como protagonista a capacidade deslizante de Varane (para que percebam, a realização chegou ao cúmulo de repetir mais vezes o golo do Modric do que o carrinho do Varane, um escândalo muito superior à expulsão do Nani). Por muito que eu admire "pontapés em arco fora da área chutados por croatas acabados de entrar," é em detalhes como este que a minha comoção se demora. Felizmente -- doutra forma seríamos obsessivamente monotemáticos -- a 'posteridade' pouco tem a ver com que nos fica. Sempre dá para arejar.

 

Jennifer Lawrence

A Jennifer Lawrence the Winter's Bone (2010) merece mais o Oscar do que a Jennifer Lawrence de Silver Linings Playbook (2012). Mas é a Jennifer Lawrence the Silver Linings Playbook que nos convence da natureza não causal da magnificência da Jennifer Lawrence the Winter's Bone. Os 22 anos não nos devem distrair do óbvio: Jennifer Lawrence recebeu um Oscar de carreira. Justo? É cedo para dizer.

 

14

Ontem, numa entrevista a uma rádio local, perguntaram-me se acredito no futuro do amor (romântico-erótico, entenda-se). Respondia enquanto antropólogo - supostamente desligado do ventilador narcísico - pelo que, anunciando um amor cada vez mais esquivo a idealizações prévias ao 'encontro', experimentei um sim. Sem exemplo.

"Perdi para o meu corpo"

No dia 10 de Fevereiro de 2011, Ronaldo 'o fenómeno', renunciou ao futebol, afirmando lapidar 'Perdi para o meu corpo.' Assim renunciemos ao dualismo corpo-alma, ou à sua versão cartesiana, e percebemos que, exactamente dois anos depois, a história repete-se numa simetria quase imaculada.



Etiquetas:


Versões de um mesmo mito


Una Giornata Particolare, 1977, Ettore Scola.



Brief Encounter, 1945, David Lean



Dos filmes visionados neste Natal poderia incluir  Ryan's Daughter (1970, David Lean) nesta mitologia. No entanto, se é verdade que Ryan's Daughter também trata da traição e do arrombo emocional trazido por um breve encontro, nele a irreversibilidade é amplamente socializada (no caso, pela generalizada infâmia que cobre 'a infiel').

Já a mitologia que proponho tem mais a ver com a solidão da memória após um encontro extra-conjugal inscrito em lugar nenhum. 'Una Giornata Particolare' e 'Brief Encounter' são filmes sobre a impossível arte de seguir a vidinha, aparentemente intocada, como se nada fosse. são filmes sobre o modo como a ausência, seja de arquivo seja de testemunhas, permite a ilusão do não acontecimento. É nessa ilusão que consiste a disjunção radical entre a brevidade e o irreversível. A brevidade de um evento é sublinhada pelo modo como este se eterniza em duas vidas resolutamente apartadas.

Etiquetas:


Para uma crise da normalidade


Amour

Perguntei-lhe se não estaria demasiado atrasado para o 'Amor'. Disse-me que não e ainda perguntou se queria pipocas.