Os dois modos da tragédia

"Terry Eagleton chamou recentemente a nossa atenção para a existência de dois modos opostos da tragédia: o grande Evento espectacular, a brutal irrupção de um outro mundo e a desoladora persistência de uma condição desesperada, de uma existência infeliz que prossegue indefinidamente, de uma vida vivida como uma longa urgência. É a diferença que encontramos entre as grandes catástrofes do mundo desenvolvido, como o 11 de Setembro e, por exemplo, a desoladora catástrofe permanente dos palestinianos da Cisjordânia. O primeiro modo da tragédia, o de uma figura que se destaca num pano de fundo «normal», é característica do mundo desenvolvido, ao passo que, em boa parte do Terceiro Mundo, a catástrofe designa o presente pano de fundo inamovível."  Slavoj Žižek, A Marioneta e o Anão, Relógio D'Água.
O terramoto do Haiti dissolve esta distinção cumulando os dois modos da tragédia. O Haiti mereceu a nossa atenção porque a longa urgência se cruzou com um grande evento, mas em breve o mediatismo do grande evento sairá de cena. O que segue é a vaga memória de uma mortandade escusada. Há um ano a Faixa de Gaza foi atacada, na altura os massacres e a utilização do fósforo branco causaram grande comoção internacional. Seguiu-se a costumeira reposição de uma longa urgência;  hoje temos a vaga memória de uma mortandade escusada. O esquecimento, pois claro, é o que o melhor une os dois modos da tragédia.

Dadas as circunstâncias: política de buraco de fechadura


Não é achado de maior reconhecer que José Sócrates beneficia da fortuna histórica de suceder ao governo liderado por Santana Lopes. Ainda assim, creio que que este "dado genealógico" não tem sido suficientemente valorizado quando tentamos perceber, por exemplo, porque é que sucessivas evidências de embriaguez autoritária jamais resultam numa indignação generalizada da opinião pública. Veja-se a cavalgante perda de sensibilidade em relação ao que seja o respeito pela liberdade e pelo pluralismo de opinião enquanto bastião da democracia. Não fosse assim e a demissão de José Sócrates em resultado da sua "relação tempestuosa" com os media seria, naturalmente, a questão do dia. Não é.

É claro que nem tudo deve à bitola legada por Santana Lopes. Sócrates beneficia também dos seus contemporâneos mais relevantes: o descalabro do principal partido da oposição, por um lado, e, por outro, um jornalismo que nunca conseguiu cumprir o corajoso papel de denúncia sem levantar sérias questões de deontologia ou sem dar ar de senda persecutória: Jornal de Sexta, linha editorial de José Manuel Fernandes, affair Mário Crespo, escutas no Sol, etc.

Ainda assim, o facto é que em pouco tempo Santana Lopes conseguiu juntar à incompetência governativa - enquanto tecnocrata, gestor e líder de governo, já não falo como decisor político - uma manifesta tentação autoritária bem sublinhada pelo caso da saída de Marcelo da TVI. Em contraste com Santana Lopes, Sócrates mostra uma óbvia competência governativa - enquanto tecnocrata, gestor e líder de governo -, tem os seus principais adversários públicos fundados em linhas deontológicas problemáticas, tem o principal partido da oposição convertido em anedota e, com tudo isto, a opinião pública portuguesa parece mais que disposta a perdoar-lhe os pecadilhos autoritários.

Nesta perda de sensibilidade jaz a semente de uma berlusconização em curso: na lealdade ao menor dos males, conforme historicamente definido por Santana Lopes, nenhuma forma de autocracia germina sem a disponibilidade prévia dos governados. Ou seja, a presente complacência com os sucessivos sinais exteriores de autoritarismo representa uma perda de sensibilidade democrática, mais: é um memorando do modo como os princípios democráticos dos governados tantas vezes têm capitulado perante as circunstâncias.

Publicado também no Arrastão.

Mudar de canal costuma ser suficiente

"O seleccionador nacional de futebol, Carlos Queiroz, e o comentador televisivo Jorge Baptista envolveram-se esta manhã numa troca de agressões no aeroporto de Lisboa."
Público

À atenção do Pedro Mexia

Michelle Brito.

Cortar e colar

Primeiro, quando a conheceu, tentou "manter a formatação original", depois, como mais nada resultasse, esforçou-se por "corresponder à formatação de destino". No fim, só e desconjuntado, tudo o que queria era "manter apenas o texto".

Escutas

A facilidade com que discorremos sobre conversas privadas não deveria depender da uma persuasão pessoal em relação à veracidade das mesmas ou de um juízo sobre o grau de ilícito que comportam (aqui falo tanto de conversas ouvidas num restaurante como de escutas publicadas no youtube). Deveria depender, sim, de uma decisão pessoal em que cada qual optaria por validar o modo como determinada conversa privada pôde ser tornada pública, tirando consequências do seu conteúdo, ou optaria por recusar cumplicidade com aquilo que entende qualificar como atentado à privacidade de outrem, demitindo-se de a comentar. O facto é que a generalizada noção da existência de constrangimentos políticos à liberdade de expressão, a trivialidade das fugas ao segredo de justiça bem como o espectro das corrupções impunes deixam o comum opinador olimpicamente perdido entre princípios.

Publicado também no Arrastão.

Essie Jain - "Understrand"



"(...) the storms resounding in the west"

Versões de um mesmo mito

Isaías (o do Velho Testamento falando com Deus): "Eis-me aqui, envia-me a mim".
Isaías (o de Cantanhede falando com Lara): "Posso dormir cá hoje?"

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O som e o sentido

"Tens a certeza?"

Trasmissões televisivas de clubite



Com raras excepções, a narração de um jogo de futebol na TVI ou na SIC ilustra com acuidade aquilo que comummente se designa por suplício. Facto prosaico facilmente explicável, primeiro, pela menor qualidade dos intervenientes quando comparados, por exemplo, com os elevados padrões oferecidos pela RTP (já a Sporttv demora a perceber que não basta cicrano ter um passado ligado ao futebol para conseguir estar 90 minutos ligado ao comentário de um jogo), em segundo, pela instrumentalização do relato dos jogos para a publicitação dos programas que se seguem na grelha (enquanto o Aimar se dirige isolado para a baliza sai um oportuno teaser sobre o Caminho das Índias).

Como se isto não bastasse, e longe de mim sufragar a expressão acusatória "jornalistas de Lisboa", o facto é que almas conspirativas como esta que vos fala não conseguem deixar de reparar num certo "viés regionalista" comum aos narradores de serviço nas estações em apreço - e quem teve o azar de ver/ouvir o Belenenses-Porto de ontem saberá do que estou a falar. Sinceramente, a libido clubística daqueles senhores é tão exuberante que deve incomodar o mais anti-portista dos espectadores .

Crítica fácil, já sei. Há que propor soluções, concordo. Pois bem, com o intuito de uma fachada de isenção, proponho à TVI que ministre uma acção de formação aos seus narradores de futebol, consistiria esta em três módulos: 
I  "Como disfarçar a extrema alegria que nos assalta quando o Porto está a perder";  
II "Como disfarçar a extrema tristeza que nos assalta quando o Porto ganha";  
III "Como lidar com a tristeza continuada".

Publicado também no Arrastão.

Agassi

Brooke Shields convenceu-o a deixar a peruca, Steffi Graff convenceu-o a deixar as drogas. Há homens que buscam nas mulheres a mão materna que os aprimore, há homens que se desgraçam para que as mãos maternas tenham o que lhes fazer.



As minhas entradas estão a dar de si (II)

Entre o acne tardio e o prenúncio da calvície passei por um período vagamente sexy. Foram vinte minutos memoráveis.

Um apelido muito disputado


Rúben Micael Freitas da Ressurreição.

Haiti

"Custa-me, mais uma vez, constatar que a injustiça continua a ser grande e que catástrofes com dimensões idênticas por vezes têm consequência menores (basta que aconteçam em países ditos "avançados"), outras dizimam populações inteiras. Mas apraz-me perceber que cada vez mais os cidadãos do Mundo se unem, estão alerta, têm iniciativa e agem." Fernando Nobre
Na verdade, vejo-me hesitante entre o "puro lamento" (revolta com o absurdo) e a politização de uma espécie de "culpa do sobrevivente" (a consciência de como a assimetria na distribuição dos recursos determina o grau de vulnerabilidade ao inesperado).

Podem ver aqui como contribuir para a campanha de Emergência da AMI.

(Publicado originalmente no Arrastão)

Catenaccio

A desatenção civil (civil inattention) torna possível a vida numa realidade urbana, dizia-nos Erving Goffman. Como perceberá facilmente  quem deambule em contexto urbano, a desatenção permite uma  demarcação entre o estranho e o íntimo, demarcação essa que acaba por constituir uma sábia defesa contra as multidões que povoam  as ruas. Mas a desatenção que define o estranho por omissão também pode extrapolar funções convertendo-se num excelente mecanismo reflexo contra todas as  formas da intimidade. Não é excessivo afirmar que a dita revolução interior se refere, na maior parte dos casos, à migração da  desatenção civil  para o  leito povoado por uma multidão de 2.